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  • CAA na minha vida

    CAA na minha vida

    Por Alice Casimiro

    A CAA entrou de vez na minha vida através de uma residente de psiquiatria que me atendeu no hospital universitário de 2018 a 2020. Era a segunda vez que estávamos buscando atendimento psiquiátrico para mim, mas a diferença era que, em vez de se contentar em ter minha mãe falando por mim nas consultas, essa profissional entendeu que apenas eu sou capaz de sentir minha própria dor, portanto apenas eu poderia falar por mim. Eu já tinha 20 anos, mas ainda não sabia comunicar muitas coisas, inclusive relatar o que acontecia ao meu redor e expressar como me sentia.

    Depois de algumas consultas frustradas por não conseguir receber relatos meus para saber como me ajudar, a médica e a equipe que trabalhava com ela me atendendo solicitaram que eu anotasse algumas coisas e levasse nas consultas para elas lerem. No começo, eu tinha que anotar todos os horários em que eu acordava durante a noite, mas depois, pediram para eu anotar acontecimentos da minha vida.

    Foi bem difícil no início, e eu escrevia uma quantidade bem mínima de coisas e me referia a mim na terceira pessoa. Meses depois, escrever em um caderninho se tornou a forma de conversar entre mim e a médica. Não era tão dinâmico e satisfatório porque eu só poderia contar a ela algo que pensasse na consulta semanas depois, quando levasse o caderninho novamente, mas era o que tinha, e o que tinha já era muito melhor do que o nada de antes. Nem eu nem a médica sabíamos que aquela forma de comunicação era parte da CAA, mas, mesmo assim, ser introduzida a ela salvou a minha vida.

    No ano seguinte, eu já estava gostando bastante de ter na escrita uma ferramenta poderosa que fazia quem lia saber o que eu estava pensando e me dar um retorno, então decidi escrever na internet para meus pais lerem. Graças a isso, passei a ter menos crises de choro e autoagressão, que eram especialmente comuns desde a pré-adolescência. A melhor parte foi que meus pais leram e puderam entender coisas que nunca souberam sobre mim desde minha infância.

    Ao site que criei como local para guardar meus pensamentos de forma verbal eu dei o nome de “A Menina Neurodiversa”. Minha mãe divulgou em suas redes sociais, e outros familiares e algumas amigas dela tiveram acesso também. O site acabou alcançando mais pessoas. Por isso, meses depois de criá-lo, criei uma página de mesmo nome no Facebook para divulgar os links dos textos lá da página. No ano seguinte, criei a página no Instagram, que hoje se chama Alice Neurodiversa e se expandiu para algo bem maior do que qualquer coisa que eu poderia prever.

    Através da página, eu fiz amigos, conheci pessoas parecidas comigo e pude ajudar muitas pessoas, desde autistas a famílias e profissionais que convivem com autistas. Eu gosto bastante de falar sobre CAA nela porque foi o que destravou meu mundo, mas ainda vejo muita resistência por parte das famílias.

    Escrever na página é uma forma que tenho de usar a CAA, agora não mais apenas em papel, pois eu consigo expor ideias que tenho a respeito de muitas coisas que acontece e que sempre vi enquanto observadora silenciosa para muitas pessoas. Descobri que existem pessoas com ideias parecidas, o que me fez me sentir menos sozinha no mundo, e ganhei uma forma de interagir com elas.

    Pessoalmente, ainda falo pouco, tenho uma fala embolada e não uso a fala de forma 100% funcional, então a CAA é minha grande amiga, mais especificamente a comunicação aumentativa, que complementa o que consigo expressar pela fala. Se não fosse ela, eu continuaria me sentindo rasa e eternamente infantil perante a sociedade.

    Minha comunicação se alterna entre algumas coisas faladas, a escrita, uso de aplicativo com pictogramas e, é claro, a linguagem não verbal. A minha comunicação não verbal, pelo que descobri me vendo em vídeos e fotos, é bem diferente da das pessoas típicas, por isso pode ser interpretada errado, como que não quero companhia, que estou brava ou até que sou “doida”, mas surpreendentemente apareceram pessoas na minha vida que têm a mente aberta e são respeitosas com minha forma de existir. Isso simplesmente não tem preço e me faz feliz.

    Este texto foi escrito por Alice Casimiro, do instagram @alice_neurodiversa

  • CAA na minha vida

    CAA na minha vida

    Por Carol Souza

    Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) são um conjunto de práticas comunicativas com vários recursos, para auxiliar as pessoas que não falam ou que falam, mas que tem dificuldade de usar a oralidade satisfatoriamente em todos os momentos.

    Eu não tive oralidade funcional até a adolescência. Eu falava ecolalia, até cantava, mas não comunicava nada por meio da fala. Não dizia o que doía, se doía, o que eu queria comer, beber, o que eu gostava, não gostava. Minha mãe e tia contam que elas nem mesmo sabiam se eu acreditava em Papai Noel. Com isso vinham as crises. Eu tinha crises diárias, mais de uma vez no dia.

    Aos 13 anos minha psicóloga da época me ensinou a escrever para comunicar. Não foi fácil e nem rápido. Levaram 12 anos pra eu me acostumar. Eu não usava se não insistissem muito. Era muito difícil me fazer escrever. 

    Já me disseram que foi porque na época eu não tinha os pré requisitos necessários, mas não é verdade. Não existem pré requisitos. A questão é que minha mãe e tia não receberam orientação adequada para serem boas parceiras de comunicação pra mim. Elas não sabiam como me estimular.

    Com o tempo eu fui escrevendo palavras, depois vieram as frases, mas somente aos 25 anos, vieram os textos relatando fatos. E foi a partir desse momento que a minha família passou a me conhecer melhor.

    Atualmente uso CAA e falo. Minha oralidade melhorou depois disso, assim como as crises diminuíram. Minha fala não é totalmente funcional e nem sempre consigo me fazer entender por ela. Há momentos em que o que eu falo, não tem a ver com o que eu quero dizer. Por exemplo, outro dia eu perguntei oralmente a minha mãe “O que é Sedex?”. Só que na minha cabeça a pergunta era “Como vamos saber o endereço pra enviar via Sedex?”

    É por isso que CAA também é para pessoas falantes com necessidades complexas. Eu uso um sistema robusto com teclado e pictogramas. Quando estou estressada e não consigo escrever, uso os pictogramas. Quando estou bem, uso o teclado. Um sistema robusto é importante para garantir que tenhamos todas as ferramentas para comunicar o que quisermos.

    Todos são capazes de usar CAA. Comunicação é direito e CAA é vida.

    Este texto foi escrito por Caroline de Souza, do instagram @carolsouza_autistando

  • Modelando Linguagem com CAA

    Modelando Linguagem com CAA

    Por Megan Stewart. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.        

    Neste post, vamos falar sobre uma estratégia muito importante que todos os parceiros de comunicação de usuários emergentes de CAA devem usar, que tem muitos nomes. Alguns desses nomes são modelagem, entrada de linguagem auxiliada e estimulação de linguagem auxiliada. Todos eles significam a mesma coisa, isso é realmente mais uma preferência quanto à palavra que você usa. Ao longo deste post, vou usar o termo “modelagem”.

    O que é Modelagem?

    Ok – a primeira pergunta que você provavelmente tem é “O que é modelagem?” Não, não é andar na passarela e não tem nada a ver com moda. Ao contrário desse tipo de modelagem, este é o tipo de modelagem que qualquer um pode fazer! Sim, agora é a sua vez de ser uma supermodelo!

    Simplificando, a modelagem com um sistema de CAA é apontar para símbolos em um sistema de comunicação enquanto você diz verbalmente uma palavra. Preste atenção a essas palavras, estamos falando apenas sobre o que nós, como parceiros de comunicação, estamos fazendo e não sobre o que o aluno está fazendo. O foco da modelagem está no que estamos oferecendo aos alunos. Não há expectativas para o aluno – exceto por sua presença. É isso! Enquanto o aluno estiver presente, podemos modelar a linguagem para eles.

    O foco da modelagem está no que NÓS estamos fornecendo aos alunos. NÃO há expectativas para o aluno – exceto sua presença.

    Se você já viu uma prancha de comunicação de vocabulário essencial ou qualquer sistema de CAA, viu essas imagens divertidas, muitas vezes coloridas, chamadas de símbolos, com palavras embaixo delas, organizadas em uma grade – como esta.

    Este é um exemplo de uma prancha de comunicação de vocabulário essencial. Para nossos usuários de CAA, aprender a usar esses símbolos para se comunicar é semelhante a aprender um novo idioma.

    Por que precisamos modelar a linguagem?

    Não sei quanto a você, mas se estou aprendendo um novo idioma, a adição de imagens ou alguma forma de mostrar visualmente a palavra que estou aprendendo me ajudará a aprender e lembrar a palavra para uso futuro. A adição de imagens também ativa outro modo de aprendizado ao tornar a linguagem visual, o que muitas vezes ajuda os alunos a aprender e lembrar o significado de várias palavras. Aprender a usar a linguagem simbolizada é semelhante a aprender uma nova língua falada.

    Para ensinar nossos alunos a usar esse novo sistema de linguagem de símbolos, temos que ensiná-los a usar o sistema usando o sistema que eles estão usando. E esses sistemas de CAA baseados em vocabulário essencial podem não parecer confusos e podem ser claros para nós como parceiros de comunicação; no entanto, somos capazes de ler das palavras acima das imagens, para garantir que sabemos o que as imagens estão representando.

    Temos que ensiná-los COMO usar o sistema USANDO o sistema que eles estão usando.

    Se retirarmos as palavras e deixarmos apenas as imagens, você acha que seria capaz de saber o que as imagens representam? Algumas provavelmente sim, pois são facilmente representadas em imagens, como o sinal de “pare”, bem como “coma” e “beba”. Porém, outras são muito mais difíceis de “simbolizar” ou transformar em figuras, como “mais”, “todos”, “fazer”, “virar”, etc. Então como podemos esperar que eles entendam o que os símbolos significam e os usem para se comunicar conosco? É por isso que precisamos usar e conversar com os alunos com seu sistema de CAA!

    Como faço para modelar a linguagem?

    Então, agora que sabemos o que é modelagem e por que precisamos fazer isso, vamos falar sobre como modelar a linguagem em sistemas de CAA para nossos alunos. A primeira coisa que quero que você saiba é que deve continuar a falar com os alunos normalmente. Você pode e deve continuar falando com os alunos em frases e sentenças como você tem feito, não há necessidade de apenas dizer verbalmente as palavras e símbolos que você está apontando e modelando.

    Com isso dito, é mais benéfico modelar uma palavra acima do que o aluno é capaz de usar de forma independente. O que isso significa é que, se um aluno ainda não estiver usando ou iniciando qualquer comunicação por meio de símbolos e/ou CAA, você deve modelar apenas uma palavra/símbolo para ele. Se um aluno estiver usando uma palavra/símbolo de forma independente para se comunicar via CAA, você poderá modelar duas palavras para ajudar a expandir o uso de símbolos para comunicação.

    Sentindo-se sobrecarregado?

    Se você está se sentindo sobrecarregado com todas essas informações, deixe-me assegurar-lhe e lembrá-lo de que você pode fazer isso! Não se preocupe em fazer “errado” – não há palavras certas ou erradas para modelar em qualquer sistema de CAA. Modelar quaisquer palavras é melhor do que modelar nenhuma palavra.

    Na verdade, você pode modelar palavras diferentes toda vez que se envolver em uma atividade! Por exemplo, durante a leitura de um livro, você pode modelar as palavras “virar”, “olhar”, “gostar”, “eu”, etc e em outra leitura do mesmo livro, você pode modelar as palavras “meu”, “você”, “mais”, “de novo”, “sim”, etc. Ambas as leituras são igualmente importantes. Essa é uma das coisas maravilhosas dos sistemas de CAA baseados em vocabulário essencial – você pode modelar uma variedade de palavras e todas são apropriadas!

    Modelar QUALQUER palavra é melhor do que modelar NENHUMA palavra.

    Outra preocupação de alguns que ainda não estão familiarizados e/ou confortáveis ​​com a modelagem de palavras/símbolos é que eles não sabem onde estão todos os símbolos dentro do sistema de CAA. Tudo bem – e normal!

    Estou familiarizada com muitos sistemas de CAA diferentes e às vezes ainda tenho dificuldade em encontrar os símbolos. Não há necessidade de esperar até saber onde estão todas as palavras/símbolos antes de começar a modelar. Se você fizer isso, nunca começará a modelar a linguagem para seus alunos!

    Quando você se encontrar na situação em que não consegue encontrar a palavra/símbolo que está procurando, fale sobre o processo que está usando para encontrar a palavra em voz alta – para que o aluno possa ouvi-lo. Costumo dizer coisas como: “Não consigo encontrar ‘brincadeira’. Para onde foi essa palavra? Hmmm…” enquanto digo isso, estou examinando a prancha, rastreando com meu dedo indicador como se estivesse apontando. Então, quando encontro a palavra/símbolo que estou procurando, digo: “Oh! Achei, tem ‘brincadeira’” e aí eu reafirmo o que ia falar – por exemplo “Quer brincar?”

    Falar sobre sua estratégia para encontrar a palavra que você está procurando ajuda o aluno a saber que não está sozinho se não souber onde estão todas as palavras/símbolos em seu sistema de CAA. Também ensina e mostra que eles não precisam ser perfeitos e que está tudo bem errar, todo mundo erra.

    Se você ainda estiver sobrecarregado, tente o seguinte – escolha uma palavra/símbolo do sistema de CAA de vocabulário essencial que seu aluno usa e modele essa palavra/símbolo sempre que puder ao longo do dia. Quando você se sentir confortável com essa palavra/símbolo, você pode mudar para uma palavra/símbolo diferente para modelar. Eu sei que conforme você continuar praticando a modelagem, você ficará mais confortável com ela e estará modelando uma variedade de palavras/símbolos diferentes antes que você perceba!

    Espero que, a essa altura, você esteja se sentindo mais confortável com o que é modelagem, por que devemos usá-la e como usá-la. Para encerrar, gostaria de abordar algumas perguntas frequentes quando ensino sobre esse assunto.

    Perguntas frequentes:

    “Quem deve modelar linguagem nos sistemas de CAA dos alunos?”

    Todos! Todas as pessoas com as quais o aluno possa se comunicar ao longo do dia devem modelar a linguagem! Adultos e crianças, professores e colegas, irmãos, pais, tias, tios, avós, primos, etc. Isso ajuda o aluno a aprender que a comunicação acontece em todos os lugares com todos e não é uma atividade que só acontece com certas pessoas.

     “Onde devemos modelar a linguagem?”

    Em todos os lugares! Assim como estamos incentivando o aluno a se comunicar com todos, também devemos incentivá-lo a se comunicar onde quer que vá! Somos capazes de nos comunicar onde quer que vamos, assim como nossos usuários de CAA! Você pode ajudar a tornar isso mais fácil garantindo que o aluno tenha acesso ao seu dispositivo/sistema de CAA onde quer que vá. Isso pode ser feito com o aluno levando seu dispositivo/sistema com ele ou ter várias cópias de seu sistema de comunicação em vários locais ao longo do dia para facilitar o acesso.

    “E se eles não estiverem olhando para o sistema de CAA quando estou modelando?”

    Tudo bem! Mesmo que eles não pareçam estar olhando ou ouvindo, continue! Você ficará surpreso com o que eles estão captando, ouvindo etc! Alguns alunos podem estar olhando com sua visão periférica ou de uma forma que não seja óbvia. Eles podem olhar quando você desvia o olhar, o que significa que você provavelmente sentiria falta de vê-los olhar. Isso pode ocorrer por vários motivos, por exemplo, alguns alunos podem ter dificuldade em olhar, ouvir e processar informações de uma só vez – é uma pressão excessiva em seus sistemas sensoriais. Eles podem precisar olhar, ouvir e atender em momentos diferentes para ajudar a aumentar sua atenção e compreensão. O mais importante a lembrar é que não precisamos esperar que o aluno olhe para o símbolo/palavra antes de modelar essa palavra/símbolo. Se fizermos isso, perderemos muitas oportunidades de modelar a linguagem para nossos alunos. “Se esperarmos pelo olhar, nunca chegaremos à linguagem!”

    “E se eles não deixarem você modelar em seus dispositivos, prancha essencial etc?”

    Honre isso – é o sistema de linguagem deles. Se quisermos incutir no aluno um senso de propriedade com seu sistema de CAA, (e queremos), precisamos ensinar e mostrar ao aluno que seu sistema de CAA é dele e que ele pode fazer escolhas sobre quem usa seu sistema e quem não.

    Para combater isso e garantir que ainda possamos modelar a linguagem para nossos alunos ao longo do dia, é importante ter uma versão adicional do sistema de linguagem do aluno – você provavelmente terá que fazer uma versão em papel de um dispositivo digital ou ter um dispositivo extra quando possível.

    Outra opção é ver se eles permitem que você “aponte” para o modelo sem tocar no dispositivo/prancha essencial – passando o dedo sobre os símbolos ou usando um apontador laser ou luz digital para modelar sem tocar no sistema.

    Agora que chegamos ao final deste post, espero que você se sinta muito mais confortável com a modelagem – o que é, por que a usamos e como fazê-la.

    Este texto foi escrito por Megan Stewart, fonoaudióloga criadora do SENSEable literacy, em 08/04/2020. Você pode encontrá-lo em https://senseableliteracy.com/modeling-language-with-aac/. O conteúdo deste post em formato de vídeo também pode ser encontrado em https://youtu.be/cbiiWv9fxjo. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.

  • Ajude seu filho a falar: rotina de banho

    Ajude seu filho a falar: rotina de banho

    Fonte da imagem: www.freepik.com

    Por Mrs. Speechie P. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.        

    Estou muito animada para continuar minha série de rotina baseada em linguagem com este post sobre a hora do banho! Eu sei que a maioria das crianças ADORA a hora do banho (o que é ótimo, pois é uma atividade motivadora), mas também é verdade que muitas crianças lutam com banhos porque não gostam que joguem água na cabeça (ou outros eventos sensoriais relacionados). A boa notícia: as rotinas da hora do banho ajudarão com esses dois tipos de crianças! Como? Ter rotinas definidas ajudará a criança a prever o que está por vir – o que aumentará a comunicação e, ao mesmo tempo, reduzirá a frustração e a ansiedade (o que também significa reduzir – mas é claro não eliminar – alguns comportamentos) sobre o desconhecido.

    Se esta é a primeira vez que vê a série de rotinas, é fortemente recomendado que você leia por que as rotinas são importantes e como implementá-las, bem como o primeiro artigo sobre como criar uma rotina de linguagem pela manhã. Depois de saber o porquê e o como, fica muito mais fácil começar a adicionar linguagem às suas rotinas diárias – o que irá expor seu filho a MUITO MAIS LINGUAGEM, dando muitas repetições. Além disso, haverá dicas diferentes em cada post, então não deixe de ler todos!

    Como ajudamos nossos filhos a falar? Nós modelamos a linguagem para eles. Dizer a uma criança “diga isso, diga isso” e constantemente fazer perguntas não é uma função natural da linguagem, e também ensina a criança que falar é um trabalho árduo, algo que ela “tem” que fazer em vez de ser algo que elas “querem” fazer. Isso também tira o controle de uma criança (ou os encorajam a assumir o controle recusando-se a falar). Em vez disso, mostrar a uma criança COMO queremos que ela fale e modelar o que queremos que ela faça coloca menos expectativas na criança e é significativamente mais natural.

    Para este post, darei ideias para modelar a linguagem e aumentar a compreensão dos conceitos básicos durante a hora do banho. Lembre-se, para tornar isso uma rotina, deve ser feito na mesma ordem todas as vezes, para que seu filho saiba exatamente o que vai acontecer e quando vai acontecer.

    Primeiro – Fale sobre tomar banho: Quando meu filho era pequeno, ele tomava banho dia sim, dia não depois do jantar. Nos dias de banho, conversávamos sobre o banho durante o jantar. “Depois do jantar, Kam toma banho”, “Você está pronto para o banho?”, e conforme se aproxima, falamos “hora do banho” e “Vamos tomar banho!”. Isso permite que ele saiba desde o início que é dia de banho, pois não faz parte de nossa rotina diária.

    Em seguida, abrindo a água e tirando a roupa. Eu recomendo fortemente que você encoraje seu filho a se despir de forma independente ou ajude se ele ainda não for fisicamente capaz. Linguagem para modelar durante esse momento: “Abre água, água quente, abre água fria”, “tira roupa, tira camisa, tira calça, tira fralda, ai tá molhado/está com cocô” ou “senta no penico, penico antes da hora do banho”, “água fora”. Você também pode aproveitar esta oportunidade para modelar partes do corpo e preposições: “camisa sobre a cabeça, calças fora das pernas”. Você também pode fazer com que seu filho solicite bolhas ou sem bolhas – as escolhas são as melhores!

    Entrando na banheira. Eu AMO usar esse momento para falar sobre calor e frio! Eu sei que isso coloca um passo a mais na sua rotina, mas eu sugiro propositadamente deixar o banho muito quente ou muito frio – para que você possa falar sobre esse conceito. Mesmo que o banho NÃO esteja muito quente ou muito frio, você pode fingir que está! Coloque sua mão e dizer – “oh ai! Muito quente! Precisamos de água fria!” ou “uau, burrrr, a água está fria! Precisamos colocar água quente! Ligue, mais água”. Deixe seu filho sentir para que ele aprenda a diferença entre quente e frio (como tocar levemente – não coloque seu filho em uma banheira super quente!). “Entre na água, Kam está molhado! Splash splash splash!”

    Aprendendo no banho: O banho é um bom momento para falar sobre as partes do corpo “aponte para sua cabeça, eu tenho um cotovelo (mostre ou aponte para o seu), mostre seu dedo do pé, a cabeça da mamãe, seu nariz, meu braço” etc. Se eles não seguem as instruções, você pode apenas apontar e dizer “aqui está a cabeça da mamãe e aqui está a cabeça de (nome)”. Você pode falar sobre quais coisas estão molhadas e quais estão secas. Meu filho AMA suas letras de espuma (tem bichinhos de espuma também!!) e a gente cola na lateral da banheira “tá preso, caiu, ah não!”. Nós também falamos sobre as cores de seus brinquedos. Posso modelar descrevendo seus brinquedos: “barco grande, T rosa, jacaré pequeno” etc.

    Brincar no banho: A hora do banho deve ser divertida – não se concentre tanto na modelagem da linguagem e na provocação a ponto de que você se esqueça de brincar! Deixe seu filho brincar com seus brinquedos e apenas faça observações e comentários “oh, você está derramando a água, oh não!!!!! Não me espirre! Água na banheira, sem espirrar, oh não, mamãe está molhada! A linguagem que você usa aqui dependerá absolutamente dos brinquedos ou itens que seu filho está usando na banheira. Vou destacar algumas brincadeiras de banho favoritas abaixo:

              1. Abra a torneira e finja que está chovendo nos brinquedos.

              2. Barco de brinquedo –  Adoro aqueles que tem uma aba que abre e fecha. “Coloque, abra o barco, o que tem dentro? Onde está o peixe?” Há tanta linguagem que você pode usar com este brinquedo entre o barco, o capitão, o peixe e água! Para os amantes de carros, uma balsa seria um brinquedo motivador! Lembre-se, se você fizer uma pergunta a uma criança e ela não responder, tudo bem, você pode simplesmente dizer a resposta por ela!

    3. Pequenos baldes também são ótimo porque você pode trabalhar a linguagem “despeje, coloque, a água sai!”, bem como a motricidade fina (despejar água).

    4. Conjunto de tubarão, patinhos são ótimos para aprender conceitos de grande e pequeno. Também cantamos “5 Patinhos” e reencenamos a música com os personagens – isso também funciona na contagem. Este também é um ótimo conjunto para brincar de mamãe/bebê e preposições “colocar”, “tirar”, “na mamãe”, “nadar sob a mamãe”.

    E quaisquer outros brinquedos que você já tenha ou possa encontrar – apenas fale sobre eles. O que eles fazem, eles emitem algum som, você pode adicionar efeitos sonoros? Seja criativo!

    Lavar o cabelo: não sei quanto a vocês, mas esta é a parte menos favorita do meu filho na hora do banho. Eu aguardo até o final, mas para seu filho o início do banho pode ser melhor. “Pegue shampoo, despeje, lave, lave, lave o cabelo” etc. Este é um ÓTIMO momento para atingir as partes do corpo! Na hora de enxaguar, eu digo “hora de enxaguar o cabelo, prepare-se, um, dois, três boooom! Mais uma vez.” Descobrimos que os óculos funcionam para meu filho (é a água que entra em seus olhos que ele odeia) – mas descobrir maneiras de tornar isso mais tolerável do ponto de vista sensorial pode ser enorme!

    Sair: “O banho acabou, hora de sair!” Essa é a hora que meu filho finge que não me ouve, então eu costumo dizer “vamos puxar a tampa do ralo, tchau tchau água!” “Cadê a toalha? Aqui está! Vamos sair! Suba! Seca, Seca, Seca, seca o cabelo, seca as costas” etc.

    Para aprender algumas maneiras divertidas de modelar o vocabulário ao se vestir, visite o artigo sobre rotina matinal! E fique atento para saber como adicionar linguagem à sua rotina de dormir!

    Este texto foi escrito por Andi Putt, fonoaudióloga pediátrica por trás do Mrs. Speechie P., em 02/10/2022. Você pode encontrá-lo em https://www.mrsspeechiep.com/post/help-your-child-talk-bath. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.

  • Ajude seu filho a falar: rotina matinal

    Ajude seu filho a falar: rotina matinal

    Fonte da imagem: www.freepik.com

    Por Mrs. Speechie P. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.        

    Muito bem pais, qual é a primeira dica que seu fonoaudiólogo te deu para ajudar seu filho a falar? Você entendeu, MODELE a linguagem e fale sobre o que você está fazendo durante o dia! Eu sei que soamos como um disco quebrado, mas é TÃO verdadeiro e absolutamente benéfico. Dito isso, sei que é difícil para os pais fazerem isso, porque não é natural que todos façam isso. Tudo bem se não for natural para você, e este post lhe dará algumas ideias para incorporar a linguagem de modelagem, narrando você e as ações de seu filho e usando palavras repetidamente durante suas rotinas diárias regulares. Se você perdeu meu post anterior, não deixe de ler A importância das rotinas para saber o “porquê” e o “como” para implementar rotinas diárias.

    Nesta postagem (e nas outras postagens de rotina), você notará que uso repetidamente as palavras “nós falamos sobre….(xyz)” quando, na realidade, posso ser o único falando e modelando a linguagem. Quando eu digo isso e quando você faz isso em casa, provavelmente será apenas o adulto FALANDO, no entanto, será você e seu filho COMPARTILHANDO uma experiência juntos. Esta é a parte importante… Não estou falando de uma criança ou para uma criança, estou conversando com uma criança. Isso também funciona bem com a atenção compartilhada – se eles olharem para o que eu vejo, falarei sobre isso. Também vou falar sobre o que eles estão olhando, “nossa! Você vê o ônibus? Eu também vejo o ônibus!” Se uma criança faz um som ou responde de alguma forma ao que eu digo, eu respondo a isso – TODAS AS VEZES. Se você acha que sabe o que eles querem dizer, modele para eles. É assim que as crianças aprendem, e isso é especialmente importante para crianças com atrasos de linguagem, porque sabemos que elas precisam de muito mais exposição às palavras antes de serem capazes de entendê-las e usá-las.

    Observe também que não digo tantas palavras o mais rápido possível, ou seja, não direi “Ônibus! Ônibus! Olhe para o ônibus! Você vê o ônibus? Eu vejo o ônibus! Qual é a cor do ônibus?” Eu paro e espero com frequência para permitir que uma criança responda. Também é importante não dominar a conversa ou fazer muitas perguntas ou sobrecarregar as crianças. Este também é um bom momento para aprender a tomar a vez – eu digo alguma coisa, você diz alguma coisa. Mesmo que ainda não sejam palavras claras!

    Vamos falar sobre rotinas matinais! Agora eu entendo, as manhãs são agitadas. Às vezes fico tão envolvido com “temos que ir, vamos nos atrasar!” que pulo etapas importantes – então entendo totalmente qualquer pessoa que hesite ao ler isso! Mas, na maioria das vezes, você ainda precisará vestir seu filho, escovar os dentes, dar-lhe comida, entrar no carro etc. Eu descrevi na postagem anterior sobre “rotinas” nossa rotina matinal e, neste artigo, darei a você a linguagem que usamos TODOS OS DIAS, repetidas vezes – a repetição é fundamental.

    Meu objetivo ao escrever isso é ajudar os pais a olhar para a rotina familar e pensar em como você pode incorporar mais linguagem ao SEU dia – o que provavelmente é diferente do meu dia. Para alguns, pode até ajudar escrever sua rotina no papel e planejar o que você pode dizer. Quando você ler isso, observe que coloquei TONELADAS de pontos de exclamação – normalmente os uso excessivamente porque estou empolgada com o que escrevo – mas, ao ler este artigo, quero que você pegue esse entusiasmo em meu tom e use-o com suas palavras ao falar com seu filho.

    Acordando a criança: Todas as manhãs, quando entramos no quarto de nosso filho e dizemos “Oi, Kam! Bom dia! Hora de acordar!”. Você poderia então dizer: “Oi, mamãe!” ou “Oi, papai!” para modelar a linguagem para seu filho. Meu filho tem um cobertorzinho amado chamado “B”, então dizemos “Onde está o B? Aqui está!” “Vamos descer! Desce, desce, desce, degrau, degrau”. Temos uma janela no meio da nossa escada, então paramos nela e conversamos sobre o que vemos: “Vamos olhar pela janela. Eu vejo uma árvore, oh um carro!, Olha! um esquilo!” Os esquilos são seus favoritos, então podemos conversar sobre o que o esquilo está fazendo – “O esquilo está subindo na árvore! Ele está descendo! Olha ele correndo! Vai, esquilo, vai! (Isso parece muito, e adiciona talvez 60 segundos à sua rotina regular).

    Trocar de roupa/fralda: “Vamos tirar o pijama e trocar a fralda! Ufa!!! Que fedido!! Você fez cocô!!” ou “Você está molhado!” (isso é importante, porque queremos que nossos filhos nos digam quando precisam de uma fralda nova e reconhecer isso é essencial quando é hora de treinar o desfralde). “Vamos pegar alguns lenços! Ai que frio!!” Se seu filho não gosta de ser limpo, você pode dizer coisas como “Eu não gosto disso mamãe! Pare mamãe!” (*dica – mesmo que você SEMPRE precise limpá-los e parar não seja realmente uma opção, NÃO significa que eles não possam ou não devam dizer que não gostam – estamos dando a eles palavras para como eles se sentem e o que achamos que eles estão pensando, e isso pode apoiar as habilidades de autodefesa, então tenha isso em mente!) “Vamos colocar sua fralda nova!”

    Vestindo-se: “Vamos procurar suas meias! Meias! Uma meia, duas meias! Meu filho tem meias fofas de animais, então sempre conversamos sobre qual animal tem e fazemos sons de animais. Esta é uma maneira FÁCIL de motivar as crianças a falar e expô-las ao brincar imaginativo – nós brincamos de comer os pés! “Estou com fome! Eu quero pés! Nom nom nom! ROOAAAR!” “Hmmmm, onde estão suas calças? Aqui estão elas! Calças! Camisa! Passe os braços, empurre, empurre, empurre! Onde estão seus sapatos?” “Eu os encontrei! Aqui estão eles! Sapatos nos pés! Eba, Kam está vestido!”

    Café da manhã: Para nós, o café da manhã é totalmente desestruturado, pois é de manhã e todos nós trabalhamos e vamos para a escola. Se você toma café da manhã como nós, eu usaria isso como uma ótima oportunidade para ajudar seu filho a fazer pedidos. Se seu filho puder escolher o que comer no café da manhã, você pode apresentar a ele uma dispensa aberta, 3 opções ou o que seu filho precisa comer, e esperar que ele faça uma escolha (e modele as palavras se ele apontar/alcançar). Em casa, Kam recebe cereais, então seguramos a tigela e esperamos que ele peça, ou modelamos “cereais!” antes de darmos a ele. Se ele derramar, eu digo: “OH NÃO! O que aconteceu? Derramou!” ou “Será que derramou? Oh não! Vamos limpar! Eu poderia dizer “coma os cereais! Delicioso! Humm! Isso é bom?” Eu tento limitar as perguntas, mas quando faço perguntas, MUITO frequentemente eu mesmo as respondo após uma pausa e, embora espere obter uma resposta, não espero uma. *Observação: se uma criança não quiser o que estou oferecendo, NÃO tento fazê-la pedir e, em vez disso, posso modelar “Não” ou “Não, obrigado”.

    Escovar os dentes: “É hora de escovar os dentes! Vamos pegar sua escova de dentes. Agora a pasta de dente! Colocar! Boca aberta! Escova, escova. Escove os dentes! Vamos escovar em cima! Vamos escovar o fundo! Escova, escova, escova! Mostre-me sua língua, ahhhhhhhhh” Nós também cantamos a música escove os dentes! Em nossa casa, Kam escova os dentes primeiro, então fazemos “Minha vez/Sua vez”, e antes dele entender os pronomes, usávamos “Vez do Kam/Vez da mamãe”.

    Tarefas matinais: sou uma garota de última hora que valoriza o sono – absolutamente não temos tempo para isso pela manhã, então faço essa etapa rapidamente (pense em menos de 5 minutos). O principal trabalho de Kam pela manhã: não deixar a mãe louca. Brincadeirinha (meio)! Mesmo para crianças pequenas, você pode encontrar trabalhos que seu filho pode fazer e de forma consistente. As crianças AMAM ter um trabalho desde a primeira idade e sentem orgulho e realização por poderem ser úteis. Quando você incorpora trabalhos em sua rotina e eles são executados de forma consistente, também são incorporados componentes de instruções e linguagem de compreensão. Se eu disser ao meu filho TODAS as manhãs para alimentar o gato, e então eu for buscar comida de gato… Ele sabe exatamente o que deve fazer, quer eu diga palavras ou não. No entanto, ouvir as palavras repetidas vezes aumentará a compreensão e também o encorajará a dizer essas palavras verbalmente. “Alimente o gato, yum yum gatinho! Obrigado!”. “Me ajude, você pode jogar isso no lixo? Coloque isso na pia. Pegue sua tigela”. Instruções simples de um passo – você pode ter que ajudar e mostrar ao seu filho no começo, mas ele vai pegar o jeito! Também reunimos nossos itens necessários para entrar no carro – “Onde está sua mochila? Aqui está, está na cozinha!”, “Vamos pegar a água da mamãe, agora encher o café da mamãe”, “Cadê as chaves, precisamos das chaves! Aqui estão elas! Encontrei as chaves!

    Entrando no carro: “Sim, estamos prontos, vamos lá! Hora de entrar no carro, o carro da mamãe. Tchau casa! Tchau gatinho!” Apago as luzes e comento “luzes apagadas, tá escuro!” Abrimos a porta da garagem e falamos sobre a garagem, a porta subindo “sobe, sobe, faz barulho”, “abre porta, entra, senta na cadeirinha, aperta o cinto! Coloque as chaves, ligue o carro!

    Basicamente, faço observações verbais sobre tudo o que uma criança pode pensar. Posso descrever como resolver meu problema (como quando não consigo encontrar meus sapatos) – “Onde estão meus sapatos? Eu os coloquei aqui? Nãooooo. Talvez eu os tenha deixado perto do sofá. Oh, aqui estão eles, eu os encontrei!” E também converse com seu filho sobre sua solução de problemas – “Você está cansado? Eu também estou cansado. Kam está bravo. Sinto muito, está tudo bem, às vezes também fico brava!”

    Eu realmente espero que isso lhe dê algumas ideias de como você pode modelar a linguagem (sem gastar muito tempo extra de manhã!) e apenas saiba que parece estranho no começo, e tudo bem! Assim que se tornar SUA rotina modelar a linguagem, ela ficará confortável e você nem precisará pensar nisso! Também parece que estou sobrecarregando as crianças com palavras quando você lê tudo de uma vez – lembre-se de que essas coisas não estão acontecendo tão rápido quanto você pode ler – as palavras são muito mais espaçadas na vida real.

    Este texto foi escrito por Andi Putt, fonoaudióloga pediátrica por trás do Mrs. Speechie P., em 17/09/2022. Você pode encontrá-lo em https://www.mrsspeechiep.com/post/help-your-toddler-talk-morning-routine. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.

  • Rotinas: por que seu filho precisa delas e por onde começar

    Rotinas: por que seu filho precisa delas e por onde começar

    Fonte da imagem: www.freepik.com

    Por Mrs. Speechie P. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.   

    As rotinas são muito importantes para todas as crianças, mas particularmente importantes para crianças com atrasos de desenvolvimento. Por quê? Com uma rotina familiar, seu filho saberá o que esperar, e isso resultará menos ansiedade e frustração, bem como menos acessos de raiva ou colapsos, e mais atividades familiares para usar suas habilidades de comunicação.

    As rotinas são uma excelente maneira de modelar o vocabulário para crianças com atrasos na linguagem expressiva – palavras e frases podem ser usadas repetidamente para que as crianças tenham muita exposição para palavras funcionais do dia a dia! Algumas crianças se dão bem com um horário flexível; algumas preferem horários rígidos e podem insistir em cumprir até o último minuto. Embora eu não recomende estabelecer horários super rígidos propositalmente para as crianças (porque podem ser difíceis de seguir diariamente e isso pode ser um problema quando não é possível), acho que ter uma rotina familiar previsível é muito benéfico para toda a família.

    Um ótimo lugar para começar uma rotina é ter uma hora de dormir definida. Com muita frequência, os pais relatam que seus filhos não querem dormir, então eles ficam acordados até tarde assistindo a desenhos animados ou jogando no iPad. Sei que pode ser difícil e respeito as diferenças familiares e culturais na hora de dormir, mas ficar acordado até tarde não deve ser uma opção para crianças que precisam ir para a escola pela manhã. O sono é MUITO importante para crianças (e adultos!!), e a Academia Americana de Pediatria recomenda que crianças de 3 a 5 anos durmam de 10 a 13 horas por dia (incluindo cochilos), e crianças de 6 a 12 anos, de 9 a 12 horas de sono todas as noites. Portanto, se seu filho em idade escolar precisa acordar às 6 da manhã, ele precisa dormir às 21h para obter a quantidade MÍNIMA de sono recomendada – e às 18h para obter as 12 horas completas (eu entendo totalmente que às 18h não é realista, mas para a maioria das crianças pode haver um meio termo). Os benefícios de dormir o suficiente são numerosos e incluem saúde mental/física, atenção, memória, aprendizado, comportamento e muito mais. A Academia Americana de Pediatria também não recomenda nenhum tempo de tela 30 minutos antes de dormir e nenhum aparelho eletrônico nos quartos das crianças. Em contrapartida, recomenda uma rotina para dormir. Encorajo você a ler sobre o programa Brush, Book, Bed da Academia Americana de Pediatria, que fala sobre como definir uma rotina.

    Definir uma rotina para dormir: a rotina para dormir pode ser o que você quiser, desde que seja familiar e previsível. Para meu filho Kam (que tinha dois anos quando escrevi isso), ele toma banho dia sim dia não, depois do jantar. Após o banho (ou brincadeira nos dias sem banho), ele assiste a um episódio de seu programa favorito (Patrulha Canina na época!). Assim que a música toca no final, ele sabe que é hora de dormir, e isso é ótimo porque raramente temos choro/recusa de ir para a cama, ele só sabe que é hora porque é a nossa rotina. Escovamos os dentes dele (primeiro Kam, depois mamãe!). Depois subimos as escadas para o quarto dele, onde lemos um livro ou dois. Ele acende suas três luzes (sem brincadeira, ele tem três!). Cantamos algumas de suas canções favoritas e, em seguida, cantamos uma música especial para mamãe e Kam. Temos um pequeno tocador de música que ligamos depois de colocá-lo na cama e depois saímos do quarto. Essa rotina funcionou muito bem para nós, mas seu filho pode precisar de uma rotina mais longa ou mais curta e tudo bem também! Realmente não importa qual é a sua rotina e não precisa se parecer em nada com a nossa – mas o importante é que seja a mesma todas as noites. A chave aqui é não oferecer eletrônicos sem supervisão – ou qualquer coisa super divertida – durante esse período. Não podemos fazer nossos filhos dormirem, mas podemos manter dispositivos, TVs e brinquedos favoritos fora de alcance.

    Também enfrentamos mudanças regularmente porque temos uma família mesclada. Kam tem irmãos que ficam conosco metade do tempo e com a mãe a outra metade. Então obviamente as coisas são diferentes quando os irmãos estão em casa. Eles são muito mais velhos e têm uma programação completamente diferente para adicionar ao nosso mix. O horário principal de Kam permanece o mesmo, independentemente de os irmãos estarem em casa ou não, mas tentamos subir um pouco mais cedo quando os irmãos estão em casa, porque eles adoram ir para o quarto dele, deitar na cama, jogar seus bichinhos de pelúcia e brincar. Portanto, começar sua rotina mais cedo ajuda a mantê-lo mais próximo de sua programação e funciona para nós! Tudo isso para dizer que não há problema em mudar um pouco sua programação, mas, se possível, faça pequenos ajustes para mantê-la o mais normal possível.

    Outra rotina que pode ser útil para seu filho e sua família é a rotina matinal. Algumas famílias têm diferentes rotinas matinais durante a semana e fins de semana (nós temos!), mas outras crianças podem precisar de uma rotina que permaneça a mesma independentemente do dia. Nossa rotina matinal durante a semana é a seguinte: meu marido acorda Kam, troca sua fralda e o veste todas as manhãs antes de ele sair para o trabalho. Kam então começa a brincar com os brinquedos enquanto eu termino de me arrumar. Normalmente fazemos todas as refeições à mesa, mas como eu valorizo ​​o sono e Kam se dá bem com uma rotina vagamente estruturada, ele também pode comer cereais no banheiro enquanto estou me arrumando. Assim que estiver pronto, escovamos os dentes dele, calçamos os sapatos, alimentamos o gato (é o trabalho do Kam e ele ADORA!), pegamos o café da mamãe (uma das partes mais importantes!), e depois entramos no carro para ir para a creche. Não há nada de especial em nossa rotina matinal – apenas a mantemos igual e isso faz com que funcione. Kam sabe o que esperar e, como resultado, tudo corre bem na maior parte do tempo. Isso não quer dizer que não tenhamos acessos de raiva pela manhã, porque é claro que sim (ele não queria alimentar o gato e ficou bravo quando eu fiz isso por ele; ele viu sua bicicleta na garagem e queria andar nela em vez de entrar no carro; ele não queria que a mamãe fosse trabalhar, e assim por diante). Ele ainda tem dois anos, então nós (assim como todo mundo!) ainda teremos problemas com literalmente tudo – então não espere que esta seja uma solução de “consertar tudo”,  porque, por mais triste que eu diga, isso não existe.

    Outras rotinas, como hora do banho, hora da soneca, hora do lanche, rotinas de brincadeiras e monitoramento/limitação do tempo de tela, são ótimas ideias para implementar em sua casa. Se você não tem rotinas em sua casa, eu começaria com aquela que você acha que seria mais fácil de mudar para você e seu filho e, aos poucos, acrescentaria mais. Se sua rotina atual for comandada por seu filho (come/dorme/brinca quando ele quer), eu esperaria que essas mudanças sejam difíceis e recomendaria que você se preparasse para acessos de raiva e/ou reclamações. Faça o possível para apoiar seu filho enquanto continua implementando sua rotina. As crianças são muito resilientes, e vão se acostumar, aceitar e até mesmo prosperar quando souberem o que esperar; mas pode ser difícil até que entendam as mudanças. Uma história social também pode ser benéfica para fazer e revisar para seu filho antes de implementar essas mudanças – isso seria particularmente útil para uma criança que luta com a transição e/ou é possivelmente uma criança com autismo.

    Depois de ter uma rotina previsível, é hora de adicionar algumas rotinas de linguagem repetitivas e previsíveis ao seu dia!

    Este texto foi escrito por Andi Putt, fonoaudióloga pediátrica por trás do Mrs. Speechie P., em 11/09/2022. Você pode encontrá-lo em https://www.mrsspeechiep.com/post/routines. Tradução e adaptação livre por Comunicatea@.

  • Processamento Gestalt da Linguagem e CAA

    Processamento Gestalt da Linguagem e CAA

    Fonte da imagem: www.freepik.com.br

    Este texto foi escrito por Lily Konyn, especialista em suporte da AssistiveWare, em 08/02/2022. Você pode encontrá-lo em inglês em https://www.assistiveware.com/blog/gestalt-language-processing-aac. Tradução e adaptação livre por Comunicatea®.

              

    O Processamento Gestalt da Linguagem está recebendo muita atenção no campo da CAA. Neste texto, Lily Konyn, membro da equipe de suporte da AssistiveWare e usuária de CAA em meio período, se aprofundará no que isso significa e, o mais importante, como isso pode influenciar nossas ferramentas e suportes de CAA.

    O que é o Processamento Gestalt da Linguagem?

    Processamento Gestalt da Linguagem (em inglês Gestalt Language Processing – GLP) é uma forma de desenvolvimento de linguagem que começa com frases inteiras memorizadas para palavras únicas.

    A unidade básica da linguagem é geralmente uma palavra. Construímos a linguagem palavra por palavra para chegar ao nosso significado. Para processadores gestalt da linguagem, a unidade básica da linguagem não é uma palavra; é um ‘pedaço’ de linguagem. Por exemplo, um processador gestalt da linguagem pode pensar em “Eu voltarei” como um bloco. Eles não reconheceriam as palavras “eu” e “voltar” que compõem a frase, mas a veriam como um todo. Podemos chamar esses ‘pedaços’ de gestalts ou scripts. Você também pode ter ouvido isso ser referido como ‘ecolalia tardia’.

    O processamento gestalt da linguagem é uma parte normal do desenvolvimento da linguagem. Todas as crianças têm alguns gestalts, mesmo que comecem a falar palavra por palavra. Por exemplo, a maioria das crianças (e adultos!) processa “de nada” como um gestalt. Eles não estão pensando em juntar o significado “de” e “nada” – eles estão apenas vendo o todo.

    Lembre-se de que um script (gestalt) não precisa significar o que diz literalmente. “Você está bem?” pode significar “Estou machucado!” porque muitas vezes a criança ouve essa pergunta quando algo está errado. De certa forma, os processadores gestalt da linguagem são mestres da metáfora. Eles veem as conexões entre os dois cenários e trazem a linguagem da primeira situação para a segunda.

    Muitas vezes sinto a necessidade de usar um gestalt em minha vida cotidiana. Para mim é muito difícil coordenar a fala palavra por palavra quando estou chateada. Em vez disso, uso um gestalt para transmitir o que quero dizer. “Alguns dias, você simplesmente não consegue se livrar de uma bomba!” Eu lamento. Meu cônjuge olha e pergunta: “Com o que você está tendo problemas?” Felizmente, não é uma bomba. Eu me deparei com um problema que não podia ser resolvido, não importa o que eu tentesse (assim como Batman no filme de 1966 com Adam West, expressando sua frustração ao tentar se livrar de uma bomba em um calçadão comicamente lotado). Meu cônjuge pode me trazer minha CAA ou talvez eu não precise dela. O importante é que nos esforcemos para nos entender.

    Os 4 estágios do processamento gestalt da linguagem

    Existem quatro estágios principais de processamento gestalt da linguagem:

    1. Usando frases inteiras para se comunicar (Não há lugar como o lar. Não estamos mais no Kansas.)
    2. Separando essas frases para recombiná-las. (Não estamos – em casa.)
    3. Reconhecer que as palavras são os principais blocos de construção da linguagem. (Kansas não é em casa.)
    4. Aprender a usar a gramática convencional (Kansas não é minha casa).

    Como sei se alguém é um Processador Gestalt da Linguagem?

    Saber se alguém é um processador gestalt da linguagem pode nos ajudar a entendê-lo melhor. Se não entendermos o processamento gestalt da linguagem, podemos desencorajar as crianças a ‘criar scripts’.  E esses scripts fazem parte da aquisição da linguagem. Agora, sabemos que não devemos interpretar os scripts literalmente. Não presumimos que alguém entenda como usar a palavra “lugar” só porque entende “Não há lugar como o lar”.

    Para pessoas que falam, muitas vezes é fácil identificar alguém que é um processador gestalt da linguagem. Elas repetem frases favoritas com a mesma entonação com que as ouviram originalmente. Eles não separam as frases e geralmente não usam as palavras para fazer novas frases. É muito comum que pessoas autistas sejam principalmente processadores gestalts da linguagem.

    Processamento Gestalt da Linguagem e CAA

    Não podemos dizer com certeza se uma pessoa que não fala é um processador gestalt da linguagem. A pesquisa sobre processamento gestalt da linguagem existe há muito tempo, mas não há pesquisas para identificar se pessoas não falantes são processadores gestalt da linguagem.

    Também há pouca ou nenhuma pesquisa sobre como trabalhar com processadores gestalt da linguagem e CAA. É importante lembrar que o processamento gestalt da linguagem faz parte do desenvolvimento da linguagem para todos. Então podemos esperar que todos os usuários de CAA tenham alguns gestalts.

    Também podemos supor que muitos usuários autistas de CAA podem ser processadores gestalt da linguagem. Pessoas autistas são mais propensas a serem processadores gestalt da linguagem. A boa notícia é que isso não altera as práticas recomendadas da CAA. A pesquisa mostra que as melhores práticas de CAA funcionam – para todos, não apenas para algumas pessoas.

    Alguns usuários de CAA  falam sobre os momentos em que usam a CAA porque o que sai de sua boca não é o que eles querem dizer. Os suportes visuais e motores de um dispositivo de CAA os ajudam a compor sua mensagem. Com meu dispositivo, posso dizer: “Preciso de ajuda!” em vez de “Houston, temos um problema”.

    4 maneiras de oferecer suporte com CAA a processadores gestalt da linguagem

    Muitas de nossas recomendações apoiam comunicadores usuários de CAA e também são especialmente importantes para processadores gestalt da linguagem.

    1. Modele CAA: os processadores gestalt repetem coisas de seu ambiente. É crucial fornecer muita linguagem que eles possam repetir, modelando a CAA de forma consistente. A CAA também mostra visualmente que as unidades que usamos para nos comunicar são palavras.

    2. Use palavras essenciais: Os processadores gestalt da linguagem precisam de scripts/gestalts que sejam muito funcionais e que possam ser usados ​​em muitas situações diferentes. O uso de palavras essenciais  oferece esses scripts. (‘Adorei!’ funciona em mais situações do que ‘A receita do ensopado da Lily é deliciosa!’)

    3. Não apresse a gramática: O último estágio do aprendizado da linguagem gestalt é usar a gramática convencional. Não se concentre muito na gramática até que o comunicador usuário de CAA esteja se expressando com confiança, combinando palavras.

    4. Não use a CAA como um teste: os processadores gestalt da linguagem captam a linguagem de situações carregadas de emoção. Flashcards, tiras de frases e forçar “repita depois de mim” ou atividades de mão sobre mão não ajudarão. Você não deve presumir o que eles querem dizer e deve tornar a comunicação envolvente e divertida.

  • CAA e  DIR/ Floortime

    CAA e  DIR/ Floortime

    Helena Gueiros

    Fisioterapeuta/ Psicomotricista

    Terapeuta DIR/Floortime

    Instrutora DIR/Floortime pela Profectum

    O DIR é um modelo de desenvolvimento e também uma terapia que valida além as diferenças individuais os sentimentos e as ideias da pessoa com quem nos relacionamos. Acontece que muitos dos meninas e meninas que as famílias buscam acompanhamento tem dificuldades na comunicação verbal e inicialmente na comunicação não verbal também. Como no DIR o profissional tem um olhar muito observador para dentre outras coisas os sinais comunicativos sutis isso faz com que exista maior vontade de se comunicar e a comunicação não verbal expande significativa durante o processo terapêutico. Durante esse processo com foco nas relações, no engajamento e na potencialidade alguns meninos e meninas também utilizam a comunicação verbal, porém as vezes limitada a pedidos e alguns não utilizam a linguagem verbal como meio comunicativo.

    Durante as interações quando aparecem situações em que as emoções são intensas nós validamos o sentimento, porém quando não existe a possibilidade do sujeito comunicar o que está sentindo podemos fazer presumir de forma errada o que a pessoa está sentindo e também quem fica com o controle da comunicação não é a pessoa que quer comunicar. Além disso é difícil comunicar ideias usando gestos, ações e expressões, muitas ideias envolvem pensamentos abstratos e elaborados aos quais nossos queridos amigos e amigas são capazes de elaborar, porém sem habilidades para mostrar aquilo que sabem.

    Na minha angústia de saber que eles tinham mais a dizer do que estavam conseguindo eu encontrei a CAA, a que forma que eu mais me adaptei foi o PODD. E depois de ter a CAA nas interações percebi que de fato havia passado o controle da comunicação para o comunicador e a validação dos sentimentos deixou de ser uma suposição e começou a ser genuína de quem estava sentido.

    Já escutei de alguns amigos que o mesmo estava desconfortável, e eu pensando que o mesmo estava triste. Poder explorar as ideias simbólicas também é algo que a CAA possibilita, “eu quero fazer um bolo de aniversario e cantar parabéns “um exemplo de uma ideia que não seria possível de comunicar pois não tinha os objetos concretos no ambiente. “eu gosto de balançar rápido “outra situação difícil de comunicar usando o corpo.  Saudade de uma pessoa. Essas são apenas algumas situações em que não seria possível escutar sentimentos e ideias sem a CAA.

    Encontrar um sistema robusto de Comunicação Alternativa é fundamental para qualquer individuo com necessidades complexas de comunicação e ao contrário do que muitos pensam que pode atrapalhar o fluxo do engajamento, a mesma aumenta qualidade do engajamento, o círculo de comunicação tem mais qualidade e a elaboração das ideias é possível.  Expressar seus sentimentos e ideias é o primeiro passo para regulação emocional.

  • INTERVENÇÃO PRECOCE COM COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA NO TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO

    INTERVENÇÃO PRECOCE COM COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA NO TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO

    Fga. Dra. Ana Montenegro (UFPE)

    Durante os primeiros anos de vida, a comunicação é fundamental para o desenvolvimento saudável da criança. Quando as crianças pequenas temporariamente ou permanentemente apresentam dificuldades para aprender a se comunicar por meio da fala, elas enfrentam muitos desafios porque não conseguem referir ainda necessidades básicas, desejos, conhecimentos e emoções para suas famílias, colegas, professores e a comunidade em geral (ROMSKI et al, 2015).

    Há diversos estudos sobre  intervenção precoce para desenvolver a comunicação em crianças com necessidades complexas de comunicação, entre elas, crianças com TEA. Fuller e Kaiser (2019) realizaram um estudo amplo, de metanálise, sobre pesquisas de intervenção precoce em autismo que tinha como objetivo desenvolver a comunicação social. Os achados revelaram a importância da intervenção precoce para o desenvolvimento da comunicação social. Além disso, demonstram que a média de idade dos resultados mais significativos foi para crianças com oito meses a três anos.

    O uso da Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA*) com crianças com Transtorno do Espectro do Autismo vem crescendo na prática clínica no Brasil, mas, segundo Nunes e Walter (2020), ainda temos poucas publicações científicas. E a intervenção precoce com uso de CSA é um desafio. De acordo com Cress e Marvin (2003) algumas questões permeiam os pensamentos de pais e profissionais e devem ser esclarecidas sobre intervenção precoce com uso de CSA. A seguir, algumas afirmativas importantes para a implementação precoce de CSA:

    – Não há pré-requisitos para uso de CSA. Quando os primeiros comportamentos de comunicação da criança são difíceis de interpretar, começa a necessidade da criança de intervenção em CSA;

     – Diversos estudos confirmam que a CSA promove a aquisição da fala. O uso de CSA auxilia o desenvolvimento da linguagem oral;

    – Ao invés de esperar que uma criança demonstre primeiro a compreensão de novos conceitos para inserir seus pictogramas no sistema de CSA, os símbolos referentes a esses conceitos devem ser incluídos no sistema de CSA da criança durante a intervenção e utilizados no contexto do dia a dia;

     – Além disso, ao introduzir novos pictogramas é importante permitir que a criança brinque com o vocabulário e explore novas combinações de significados no aprendizado por tentativa e erro. A demonstração de adultos pode ser mais útil do que fazer perguntas alvo ou corrigir a interpretação da criança diretamente;

    – As crianças que dependem da CSA para se comunicar, precisam experimentar os mesmos tipos de feedback do parceiro de comunicação e alternativas que as crianças em desenvolvimento típico fazem para uma comunicação igualmente inadequada;

    – Seja um sistema de alta tecnologia com saída de voz ou um sistema de símbolos de baixa tecnologia, o desempenho da criança será mais bem-sucedido se a criança já souber usar ferramentas básicas de comunicação, como expressões faciais ou vocalizações ou gestos que são ativados voluntariamente e adequadamente para fins de comunicação;

    – Crianças que usam CSA podem e devem iniciar conversas. Entretanto, se os parceiros de comunicação não percebem a natureza intencional do comportamento da criança, é mais provável que continuem a assumir a responsabilidade de iniciar e manter conversas para essa criança. Crianças com sinais sutis ou variáveis de comunicação podem não ser consistentemente percebidas como comunicativas e, portanto, podem manter papéis de comunicação passiva por mais tempo do que comunicadores mais convencionais.

    Romski et al (2015)  apresentam diversos estudos de revisão de literatura e metanálise sobre o uso da CSA em intervenção precoce em crianças com necessidades complexas de comunicação, independente da etiologia,  e concluíram que a intervenção precoce com CSA  propicia desenvolvimento de funções comunicativas, aumento de vocabulário e desenvolvimento da linguagem compreensiva. 

                Um outro estudo de intervenção precoce com uso de CSA, que ocorreu na Pensilvânia em crianças com necessidades complexas de comunicação, entre dois e cinco anos,  teve como objetivo investigar o uso da modelagem com CSA e constatou que quatro das cinco crianças da amostra apresentaram melhoras no desenvolvimento morfossintático e semântico e com generalização do uso de CSA em outros contextos sociais. Os educadores dessas crianças também perceberam desenvolvimento nas habilidades de linguagem expressiva, com melhor eficácia comunicativa. Uma fonoaudióloga afirmou que a intervenção a fez perceber que as crianças tinham melhores habilidades de linguagem receptiva do que acreditava anteriormente (BINGER, LIGHT, 2007).

    Aqui no Brasil, no estado de Pernambuco, temos realizado uma pesquisa multicêntrica com o projeto Autismo Comunica, na Universidade Federal de Pernambuco. O projeto se propõe a promover a comunicação funcional de crianças com TEA, pré-escolares, pertencentes a comunidades carentes, sendo aplicado o método DHACA (MONTENEGRO, LIMA E ARRAIS, 2020) que tem como principal ferramenta o uso de um livro de comunicação alternativa de baixa tecnologia. Ele é caracterizado como um sistema robusto de comunicação, por permitir o uso de diversas funções pragmáticas, isto é, a criança pode pedir, comentar, perguntar, narrar, protestar, cumprimentar, pois, há possibilidade de criar estruturas morfossintática variadas, com pictogramas de palavras baseada no conceito do core words ( BANAJEE et al, 2003), em que são selecionadas palavras que são mais utilizadas no dia a dia.

    O método tem como princípio teórico a proposta sociopragmática de Tomasello (2003), sendo assim, a participação do interlocutor junto a criança deve ser ativa no uso do mesmo sistema linguístico, isto é, o parceiro de comunicação da criança deve utilizar frequentemente o livro de comunicação alternativa para conversar com a criança, para que ela veja no outro, um agente intencional, para que ela possa imitar, deduzir e construir sua linguagem a partir da interação com o outro, que estará utilizando uma linguagem com os mesmos significantes. Esta é uma estratégia utilizada por muitos profissionais conhecida por modelagem, isto é, à medida que o interlocutor fala, ele também aponta para a frase ou para pictogramas de palavras-chaves no livro de comunicação comunicativa correspondente ao que ele deseja falar com a criança. Ele também pode demonstrar, do mesmo modo, como a criança deve formar a estrutura sintática no livro de comunicação que ela deseja expressar.

    Nosso projeto tem seis anos de criação, temos publicação de capítulos, alguns artigos e estamos desenvolvendo teses, dissertações, projetos de iniciação cientifica e de conclusão de curso. Destacaremos aqui a publicação recente de um estudo de caso (MONTENEGRO et al, 2021) em que utilizamos a metodologia DHACA, só que com o livro adaptado em um sistema de alta tecnologia, denominado aBoard (FRANCO et al, 2017)[1] A criança tinha dois anos e três meses,  com diagnóstico recente de TEA. As atividades eram sempre lúdicas e selecionadas de acordo com o interesse da criança, com conhecimento prévio do terapeuta. Foram realizadas 24 sessões semanais, sendo utilizadas, quando necessário, estratégia de dica física, visual, verbal e a modelagem para auxiliar na aquisição e desenvolvimento das habilidades comunicativas descrita no método. A criança apresentou desenvolvimento nos aspectos semânticos e morfossintáticos e nas funções comunicativas, pois, além da função instrumental (pedidos), ela iniciou a fazer perguntas, comentários, compartilhar objetos, solicitar ajuda, bem como utilizar as expressões sociais (oi, obrigada) com o uso do dispositivo simultaneamente com a  fala e, também na fala espontânea. Vale destacar a participação efetiva da família, que desafiou seus paradigmas antigos, acreditou no processo de intervenção com uso de CSA e utilizava com frequência o tablet para se comunicar com a criança e para que ela se comunicasse com eles.

    Para finalizar, é importante destacar que as melhores técnicas poderão existir, mas um dos pontos fundamentais é que o uso de CSA deve ser realizado e estimulado frequentemente, por todos, para que possa ser generalizado em todos os contextos sociais e torne a criança independente para se comunicar de modo funcional.

    BANAJEE, M., DICARLO, C., STRICKLIN, S.B. Core Vocabulary Determination for Toddlers. Augmentative and Alternative Communication, June 2003 VOL. 19 (2), pp. 67–73

    BINGER C, LIGHT J. The effect of aided AAC modeling on the expression of multi-symbol messages by preschoolers who use AAC. Augment Altern Commun. 2007 Mar;23(1):30-43. Erratum in: Augment Altern Commun. 2007 Jun;23(2):188-9.

    CRESS, C. J., MARVIN, C. A., “Common Questions about AAC Services in Early Intervention” (2003). Special Education and Communication Disorders Faculty Publications. 88


    [1] Atualmente existe a plataforma  REAACT, uma versão mais robusta do plataforma aBoard, coordenado pelo professor Robson Fidalgo(UFPE) que foi um dos responsáveis pela criação do aBoard.

  • MÃE E CRIANÇA NÃO ORALIZADA: PARCEIRAS DE COMUNICAÇÃO NO BRINCAR

    MÃE E CRIANÇA NÃO ORALIZADA: PARCEIRAS DE COMUNICAÇÃO NO BRINCAR

    Profa. Dra. Regina Yu Shon Chun

    Fonoaudióloga, Docente da Universidade Estadual de Campinas e

    Membro da ISAAC-Brasil

    Fonte: Arquivo pessoal, imagens autorizadas.

    Como conversar com quem não fala?

    A tendência nessa situação é falar e responder pela criança, fazer perguntas do tipo “sim” e “não” e oferecer, de modo geral, poucas oportunidades de incentivo e diálogo, como se o “não falar” significasse que a criança não entende o que lhe é dito ou que ela não possa se manifestar de outras formas como, por exemplo, por meio de gestos, olhar, apontar, sorrir, chorar ou puxar o interlocutor, além do uso de recursos de Comunicação Suplementar e Alternativa, comunicando o que deseja e sente. Dentre as crianças com prejuízo da oralidade, encontram-se aquelas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Apraxia de Fala na Infância (AFI) e com a denominada Síndrome Congênita pelo Zika Vírus (SCZV).

    O surgimento do vírus Zika, em nosso país, no final de 2015 e início de 2016, colocou essa situação em condição de emergência de Saúde Pública, sendo que manifestações clínicas do recém-nascido como microcefalia e outros sinais de comprometimento do desenvolvimento neuropsicomotor, nas áreas motora, social e de linguagem foram associadas à exposição ao vírus na gestação, o que tem gerado inúmeros estudos e pesquisas dessa temática, desde então.

    Participamos de um Projeto de Cooperação Internacional – Brazil Communication Kids, com o Dr. Samuel Sennott da Portland State University, nos EUA, aprovado pelo Comitê de Ética de ambas Universidades com apoio da CAPES  Print, no Brasil, que visa investigar os modos de interação linguística da díade mãe/cuidadora, profissional e criança com SCZV nos contextos do brincar, contar histórias e de conversação livre de uma cidade da região metropolitana de Salvador, Bahia, com a participação de alunos da graduação e do pós-graduação da UNICAMP e do grupo de pesquisa do Dr Samuel, além da fisioterapeuta, Graciele Nobre, da cidade de origem das crianças e de suas famílias.

    Resultados preliminares importantes mostram que o brincar se evidencia como um contexto bastante favorável ao diálogo entre a díade e à expressão da criança, diferentemente do conversar e do contar histórias, no grupo estudado. No brincar, a mãe/cuidadora se insere como parceira de comunicação de forma mais lúdica e prazerosa com sua criança, desenvolvendo a interação, com menor expectativa do falar, como na conversa, em que as interlocutoras parecem esperar mais por respostas orais da criança e diante do silêncio, ou da não resposta, ocupam seu espaço, falando por elas. No contar histórias, observa-se que as parceiras parecem esperar menos manifestações linguísticas da criança, constituindo uma interação mais passiva.

    Como mostra a literatura, nacional e internacional, para favorecer a linguagem e interação da criança não oralizada, como nesses casos, e quando se utiliza a Comunicação Suplementar e/ou Alternativa, assume grande relevância, presumir competência da criança como falante da língua, ser uma/um parceira/o de comunicação flexível e persistente na situação linguística, conversar e sempre oferecer oportunidades de diálogo e de interação, além de valorizar e incentivar toda e qualquer forma de comunicação da criança, engajando-a na situação de interação linguística e social. Converse bastante e sempre com a criança, ouvindo-a com atenção e procure estar atenta/o a toda e qualquer manifestação de sua parte. Agradecemos a todas e todos envolvida/os no projeto.

    Dica de leitura: Key values of a good communication partner. Disponível em https://www.assistiveware.com/learn-aac/build-communication-partner-skills.   Acesso em 18/04/2022.