Autor: ipeazul

  • Quando a comunicação antecede a alfabetização: a transformação da prática pedagógica por meio da CAA

    Quando a comunicação antecede a alfabetização: a transformação da prática pedagógica por meio da CAA

    Ao longo da minha trajetória como pedagoga e psicopedagoga, compreendi que a alfabetização não começa nas letras, tampouco nos métodos. Ela começa na comunicação. É a partir dela que a criança se constitui como sujeito de linguagem, de intenção e de participação no mundo.

    A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) entrou na minha prática a partir de uma necessidade concreta: crianças que tinham muito a expressar, mas não dispunham da oralidade como via funcional. Esse encontro não foi apenas técnico — foi, sobretudo, transformador.

    Receber um aluno usuário de CAA é, inicialmente, um convite ao deslocamento. Somos levados a rever concepções profundamente enraizadas sobre linguagem, ensino e aprendizagem. A primeira grande ruptura está em compreender que a fala não é a única forma de comunicação — e que, sem comunicação efetiva, não há aprendizagem possível.

    No início desse processo, os desafios são evidentes. Há uma sensação legítima de insegurança: como acessar essa criança? Como estruturar o ensino? Como favorecer a alfabetização sem a via oral consolidada? Soma-se a isso a necessidade de alinhar expectativas com a escola e a família, muitas vezes ainda pouco familiarizadas com a CAA como instrumento de linguagem e não apenas como suporte.

    Foi nesse contexto que compreendi que o caminho não estava em adaptar a criança ao método, mas em reconstruir o método a partir da criança.

    A psicopedagogia, especialmente sob o olhar da neuroaprendizagem, oferece uma base sólida para essa reconstrução. Ao considerar os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem — como atenção, memória, percepção e, de forma muito significativa, o processamento visual — passamos a entender que a alfabetização pode e deve ser acessada por múltiplas vias.

    No caso de crianças usuárias de CAA, o processamento visual assume um papel central. A organização de símbolos, pranchas, sistemas pictográficos e dispositivos digitais não é apenas um suporte comunicativo, mas também uma ponte para o desenvolvimento da linguagem escrita. A associação entre imagem, significado e símbolo gráfico passa a ser uma via potente de acesso à leitura e à escrita.

    Nesse percurso, algumas estratégias tornaram-se fundamentais na minha prática:

    • A valorização da intenção comunicativa antes da formalização da linguagem;
    • O uso consistente da CAA em todos os contextos;
    • A construção de repertório simbólico significativo;
    • A mediação constante respeitando o tempo da criança;
    • E a compreensão de que a alfabetização precisa ser funcional.

    Com o tempo, aquilo que inicialmente parecia um desafio técnico revelou-se uma profunda transformação na minha prática pedagógica. A CAA não apenas ampliou as possibilidades de ensino, mas ressignificou o próprio conceito de aprendizagem.

    Aprendi que alfabetizar não é fazer a criança falar — é permitir que ela se comunique. Não é exigir respostas dentro de um padrão esperado — é reconhecer diferentes formas de expressão. Não é seguir um caminho único — é construir percursos possíveis.

    A Comunicação Aumentativa e Alternativa não é um recurso paliativo. Ela é linguagem. Ela é acesso. Ela é possibilidade.

    E, quando a comunicação acontece, a aprendizagem encontra caminho.

    Adriana Alencar
    Psicopedagoga | Neuroaprendizagem

  • Minha trajetória com a Comunicação Aumentativa e Alternativa: entre desafios, descobertas e transformações

    Minha trajetória com a Comunicação Aumentativa e Alternativa: entre desafios, descobertas e transformações

    A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) não entrou na minha vida de forma imediata — ela foi sendo construída ao longo da minha caminhada como educadora, inquieta diante das limitações que a escola tradicional impõe a alunos que não se comunicam da forma esperada.

    Sou formada em Filosofia e Pedagogia, com especializações em Educação Inclusiva, Psicopedagogia e Análise do Comportamento Aplicada. Sempre atuei com o compromisso de compreender o sujeito em sua totalidade, mas foi no contato direto com crianças autistas e com necessidades complexas de comunicação que percebi que algo essencial ainda faltava: garantir, de fato, o direito à comunicação.

    Minha aproximação mais profunda com a CAA também se deu a partir da experiência em atendimento clínico. Tudo começou em um acompanhamento realizado em parceria com uma fonoaudióloga, onde tive a oportunidade de vivenciar, na prática, o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa como ferramenta essencial para o desenvolvimento da comunicação. A partir dessa experiência, me encantei profundamente pela área e passei a me dedicar de forma mais intencional ao estudo da CAA, buscando cursos, formações e aprofundamento teórico e prático.

    Receber um aluno usuário de CAA foi, ao mesmo tempo, desafiador e transformador. No início, confesso que me senti insegura. A formação acadêmica pouco aborda, na prática, como promover comunicação com alunos não oralizados ou com fala limitada. Havia vontade, sensibilidade, mas também muitas dúvidas: por onde começar? Como ensinar? Como acessar esse aluno?

    Os desafios foram muitos. Desde a falta de materiais adaptados até a ausência de formação específica nas instituições. Foi necessário buscar caminhos por conta própria — cursos, estudos, formações em PODD, Core Power, além de muita observação e escuta sensível. Aprendi que a comunicação vai muito além da fala: ela está no olhar, no gesto, na intenção.

    Com o tempo, fui compreendendo que a CAA não é um recurso complementar — ela é essencial. Ela não limita, ela expande. Não substitui, ela potencializa. E, principalmente, ela humaniza o processo educativo, porque garante ao aluno o direito de se expressar, de participar e de ser compreendido.

    Essa experiência transformou completamente minha prática pedagógica. Passei a planejar atividades mais acessíveis, a utilizar recursos visuais, pranchas de comunicação, tecnologias assistivas e estratégias individualizadas. Mais do que ensinar conteúdos, passei a ensinar possibilidades de comunicação e interação.

    Atualmente, minha intenção é ingressar no mestrado na área, já possuindo um projeto voltado ao desenvolvimento de uma plataforma digital de Comunicação Aumentativa e Alternativa, com foco na educação inclusiva. A proposta busca ampliar o acesso à comunicação funcional para crianças, adolescentes e adultos com necessidades complexas de comunicação, especialmente no contexto educacional.

    Trabalhar com alunos usuários de CAA me ensinou que inclusão não é adaptação pontual — é mudança de olhar. É reconhecer que todos têm algo a dizer, mesmo quando ainda não sabemos como escutar.

    Se hoje posso contribuir com outros profissionais, é porque um dia também estive no lugar de quem não sabia por onde começar. E é justamente por isso que acredito: compartilhar experiências é um ato potente de formação e de esperança.

    Mini currículo: Priscila Andrade Damasceno é pedagoga e filósofa, com especializações em Educação Inclusiva, Psicopedagogia e Análise do Comportamento Aplicada. Atua com crianças autistas e com necessidades complexas de comunicação, com experiência em contexto clínico e educacional, desenvolvendo práticas pedagógicas inclusivas e projetos voltados à Comunicação Aumentativa e Alternativa.

  • CAA e Baixa Visão

    CAA e Baixa Visão

    Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), a deficiência visual inclui baixa visão (ou visão subnormal) e cegueira, e a classificação destas leva em consideração a acuidade visual e o campo visual. Dentro deste universo, a comunicação aumentativa alternativa (CAA) já é amplamente difundida e adaptada às necessidades sensoriais das pessoas cegas, como o uso do Braille para leitura, o uso de símbolos manuais e táteis para pessoas surdo-cegas ou sistemas de CAA por escaneamento auditivo para pessoas cegas não oralizadas, entre outros.

    Legenda: Braille.

    Legenda: Símbolos táteis (Project Core).

    Legenda: Símbolos manuais.

    Legenda: Sistema de CAA por escaneamento auditivo (PODD auditivo).

    Porém existe um universo (amplo!) de pessoas com exame oftalmológico normal, que ainda assim apresentam dificuldade em habilidades centrais que envolvem o processamento da informação visual: a Deficiência Visual Cerebral/Cortical (DVC), pode ser definida como alteração nas funções visuais sem justificativa ocular clinicamente evidente e com lesões ocorrendo após quiasma ótico.

    Ainda pouco explorado dentro da CAA, algumas dessas alterações podem gerar grande impacto no sucesso da implementação de CAA e ser determinante no abandono desta ferramenta tão importante para comunicação de pessoas não oralizadas. Além disso, quando as adaptações no sistema de CAA são personalizadas às necessidades sensoriais do usuário pode, além de favorecer o uso da CAA, também estimular a evolução das habilidades visuais trabalhadas pelo profissional da reabilitação visual. Sendo assim, o trabalho em conjunto do fonoaudiólogo e terapeuta visual é crucial nos casos de DVC.

    E como podemos suspeitar de DVC na nossa criança que usa CAA? Alguns sinais como: dificuldade na atenção visual aos símbolos, melhor desempenho com imagens maiores e menos figuras por página, melhor desempenho com pictogramas do que com fotos, dificuldade em acertar o alvo da imagem no apontar, presença de movimentação ocular e/ou de cabeça, entre outros, podem ser sinais de alerta. Além disso, alguns diagnósticos e síndromes já apresentam descritos com importante evidência na literatura científica as alterações nas habilidades do processamento visual.

    No transtorno do espectro autista (TEA), por exemplo, já se sabe das diferenças na percepção, processamento e integração das informações visuais quando comparado ao desenvolvimento típico destas habilidades. Características comuns são hipo ou hipersensibilidade visual para luzes, cores e padrões complexos, que pode acarretar dificuldade em filtrar estímulos irrelevantes. No geral, o processamento visual para detalhes é muito melhor do que a percepção global, o que pode afetar a percepção e interpretação de estímulos complexos como rostos, expressões faciais e cenas sociais. Aqui podemos incluir também a CAA devido à complexidade dos pictogramas e o aglomerado das imagens. Porém nenhum diagnóstico por si só é determinante, sendo necessária avaliação individual das habilidades e dificuldades de cada indivíduo.

    No Brasil, as diferentes linhas teóricas que embasam a reabilitação visual, tornam a atuação dos profissionais da área bastante distintas. Lopes et al (2020) fizeram um levantamento dos diferentes protocolos de avaliação das funções visuais disponíveis e constataram falta de evidência científica e objetividade nos protocolos, bem como a dificuldade de replicabilidade destes devido à não objetividade também na descrição dos estímulos utilizados para as avaliações. Eles então desenvolveram um protocolo de avaliação das funções visuais em crianças baseado em evidência cientifica, objetivo e totalmente replicável. As habilidades visuais avaliadas neste protocolo são: fixação visual, contato visual com a face, nistagmo optocinético, movimentos sacádicos, reflexo vestíbulo-ocular, vergência, movimento visual horizontal, movimento visual vertical, sorriso como resposta ao contato visual, aumento da movimentação global ao visualizar estímulo, tentativa de alcançar estímulo visualizado, campo visual funcional de confrontação. Este estudo é um excelente norteador sobre quais habilidades visuais a sua criança deve apresentar e o que possivelmente poderia ser um limitador no uso da CAA.

    Algumas possíveis adaptações na CAA podem girar em torno da complexidade dos pictogramas que serão utilizados:  detalhamento da imagem, espessura de traço, contraste de cores, presença de texto no botão e tamanho do texto. Eu e Alessandra Buosi desenvolvemos uma biblioteca de imagens com essas especificidades e já utilizamos em sistemas de CAA para usuários que necessitam de adaptação visual e também na adaptação de livros clássicos infantis.

    Legenda: imagens com adaptação visual utilizadas para CAA.

    É possível refletir ainda sobre a quantidade de imagens por página (tamanho da grade) e estratégias para facilitar o escaneamento das imagens e a fixação visual na imagem-alvo, como o uso de closura, bordas ou luzes, bem como manter fixa a localização das imagens, facilitando assim o planejamento e a coordenação mão-olho.

    Legenda: exemplo de sinalizador visual na imagem-alvo.

    A própria luminosidade da tela ou da plastificação do papel podem ser facilitadores ou limitadores nas habilidades visuais a depender das necessidades de cada indivíduo.

    Estas e outras estratégias podem ser realizadas pensando na adaptação das necessidades sensoriais de cada pessoa com necessidade complexa de comunicação. Por isso, se faz muito importante, além da investigação de linguagem, a investigação visual completa tanto (das condições oftalmológicas, quanto das funções visuais e habilidades funcionais da visão) para garantir que todas as condições de acesso foram consideradas.

    LOPES, Márcia Caires Bestilleiro et al. Desenvolvimento do protocolo da avaliação da visão funcional infantil (AVFI) para crianças com deficiência visual. Revista Psicologia e Saúde em Debate, v. 6, n. 1, p. 91-110, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.22289/2446-922X.V6N1A7

    Sobre mim:

    Sou Luciana Leal, fonoaudióloga graduada e especialista em fala e linguagem infantil pela Universidade Federal de São Paulo, atuando com CAA há quase 10 anos na Clínica Clarear. Mais informações sobre meu trabalho, no site: www.lucianaleal.com

  • PRINCIPAL ESTRATÉGIA PARA APOIAR A COMUNICAÇÃO

    PRINCIPAL ESTRATÉGIA PARA APOIAR A COMUNICAÇÃO

    Se você está trabalhando com um indivíduo e quer aumentar a comunicação, deve tentar esta estratégia! Está provado que ela abre a porta para mais comunicação, apoia o processamento e dá mais poder ao indivíduo. Então, qual é essa estratégia? Tempo de espera!

    O Tempo de Espera é quando você simplesmente PAUSA e permite que o comunicador tenha a chance de responder. Parece tão simples, certo? Bem, em um mundo acelerado, onde muitos de nós nos sentimos desconfortáveis com o silêncio, na verdade, é muito mais difícil do que parece. Vamos discutir porque usamos o tempo de espera, como podemos praticá-lo e sua contraparte comportamental.

    POR QUE USAR O TEMPO DE ESPERA?

     Usamos o tempo de espera por alguns motivos diferentes:

    1. Ele permite que o comunicador tenha a oportunidade de responder. Se você não fizer uma pausa na conversa, os indivíduos que têm atrasos na comunicação não vão se inserir na conversa.
    2. Ele permite que o comunicador tenha tempo para processar o que foi dito. Às vezes, demora um pouco para processar a linguagem que os outros estão usando. Ao dar um tempo de espera, permitimos esse tempo de processamento e garantimos que estamos obtendo uma resposta verdadeira.
    3. Ele permite que o comunicador tenha a chance de desenvolver uma resposta. Isso é especialmente verdadeiro para aqueles que têm dificuldades de planejamento motor. Ao permitir um tempo de espera, permitimos que o comunicador tenha a chance de reunir seus pensamentos e fazê-los acontecer.

    Pensando em nossos usuários de CAA, considere o quanto precisa ser coordenado para desenvolver uma resposta bem pensada (ouvir o input, decidir o que dizer, selecionar os locais corretos e compartilhar).

    COMO PRATICAMOS?

    Você pode estar lendo isso e dizendo: “Praticar esperar calmamente, Lauren, isso não parece necessário”, e talvez não seja, mas eu desafio você a realmente observar sua prática. Costumamos dizer para utilizar um tempo de espera de 5 a 10 segundos para começar e aumentar a partir daí, conforme necessário. Alguns indivíduos precisam de quase um minuto de tempo de espera para processar informações e responder.

    Dicas de prática:

    1. Grave uma interação com o indivíduo e observe o retorno para ver se você forneceu tempo de espera suficiente.
    2. Conte mentalmente até 10 (certifique-se de ainda olhar para o indivíduo para que ele saiba que você está presente e pronto para se comunicar).
    3. Pratique sempre que puder.
    4. Ensine os outros e peça que ajudem a verificar se você está usando o tempo de espera.

    PERSPECTIVA COMPORTAMENTAL

    Costumo ver essa ideia de TEMPO DE ESPERA confundida com RETENÇÃO (reter, segurar). Retenção é uma estratégia de gerenciamento de comportamento em que você mantém um item ou ação até que uma ação específica seja realizada. No nosso caso, estaríamos retendo algo até que um indivíduo dissesse a palavra ou usasse seu dispositivo.

    Como eles diferem:

    • Tempo de espera:

    O parceiro de comunicação diz: “O que você quer para o almoço?” Em seguida, ele olha para o comunicador e PAUSA. Em sua cabeça, conta até 10. Se o indivíduo responder antes disso, honramos sua comunicação e damos o item. Se o indivíduo não responder após 10 segundos, podemos modelar algumas opções, dar escolhas ou entregar diretamente o item do almoço.

    • Retenção:

    O parceiro de comunicação diz: “O que você quer para o almoço?” Em seguida, ele olha para o comunicador e pausa. Se não houver resposta, ele pergunta novamente e então solicita uma palavra específica: “queijo grelhado”. Se o comunicador usar uma vocalização para o item do almoço, mas não a palavra esperada (queijo grelhado), o parceiro de comunicação segura o almoço até que ele consiga dizer a palavra ou usar seu dispositivo, etc. Escolhi um exemplo de comida porque você pode ver o quão problemático pode ser reter… Se segurarmos um item de uma pessoa até que ela atenda às nossas expectativas, não estamos permitindo que ela tenha a oportunidade de autonomia.

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    Texto:

    Por: Lauren Greenlief

    https://www.inspireconnectionstherapy.com/blog/strategy-to-support-communication

    Título Original:

    TOP STRATEGY TO SUPPORT COMMUNICATION

    Tradução e adaptação: ComunicaTEA Pais

  • Tudo o que você precisa saber para ensinar uma criança com deficiência visual cerebral (DVC)

    Tudo o que você precisa saber para ensinar uma criança com deficiência visual cerebral (DVC)

    A Deficiência Visual Cerebral (DVC) é uma forma única de deficiência visual, que afeta a interpretação da informação visual.

    De acordo com pesquisas atuais, 1 em cada 30 crianças apresenta dificuldades relacionadas à DVC. Isso significa que há uma boa chance de termos alunos com DVC em nossas salas de aula e salas de terapia, quer saibamos disso ou não. Esperemos que isto também signifique que a investigação continuará a crescer e a expandir-se, assim como os recursos.

    Pode ser complicado decifrar a terminologia médica e o jargão que cerca a DVC, por isso, neste artigo, vou dividi-los em fatos rápidos para ajudá-los a entender. Quer você seja pai ou educador, esta postagem do blog é o seu guia para uma compreensão clara e concisa das características, causas, estratégias de gerenciamento, comportamentos e suporte em sala de aula para crianças com deficiência visual cerebral.

    O que causa a deficiência visual cerebral (DVC)?

    A DVC geralmente é resultado de lesão cerebral que afeta os centros visuais. As causas comuns incluem encefalopatia hipóxico-isquêmica, leucomalácia periventricular, lesão cerebral traumática, infecções, distúrbios metabólicos e outras questões no desenvolvimento.

    As características concomitantes podem incluir paralisia cerebral e atrasos no desenvolvimento.

    Quais são as características mais comuns da Deficiência Visual
    Cerebral (DVC)?

    A DVC é caracterizada por vários comportamentos e respostas visuais que diferem das deficiências visuais oculares.

    Vamos explorar algumas das características da Deficiência Visual Cerebral (DVC) e como elas podem impactar as experiências visuais das crianças:

    Preferências de cores: crianças com DVC geralmente mostram uma forte preferência por cores brilhantes e saturadas, como vermelho e amarelo. Elas podem se sentir atraídas em torno de objetos que tenham esses tons vibrantes, achando-os visualmente envolventes.

    Necessidade de movimento: as crianças podem necessitar de movimento para captar a sua atenção. Isso explica por que as crianças com DVC são atraídas por brinquedos que se movem e iluminam. Também explica porque os alunos gostam de objetos que parecem se mover, como objetos brilhantes ou reflexivos.

    * Alguns objetos comuns que se movem ou parecem se mover são espelhos, pompons, leques ou bandeiras, brinquedos giratórios, cata-ventos, brinquedos de causa e efeito e garrafas sensoriais.

    Latência visual: Crianças com DVC podem apresentar resposta atrasada ao olhar para objetos. É importante dar-lhes tempo suficiente para processar a informação visual antes de esperar uma reação.

    Seus cérebros precisam de um pouco mais de tempo de processamento!

    Dificuldade com complexidade visual: a DVC pode tornar difícil para as crianças processar estímulos visualmente complexos.

    Fornecer-lhes materiais visuais simples e organizados, como objetos com cores únicas, pode ajudar a reduzir as distrações visuais e aumentar a capacidade de foco.

    Olhar para a luz e olhar sem propósito: Crianças com DVC podem demonstrar fascínio por fontes de luz e podem parecer olhar para coisas sem uma intenção específica. Elas podem passar o tempo olhando o sol entrando por uma janela ou serem cativados pelo jogo de luz e
    sombras.

    Preferências de campo visual: Muitas crianças com DVC têm preferências específicas de campo visual. Elas podem preferir olhar para objetos em uma direção específica, como na periferia ou virando a cabeça. Compreender suas preferências de campo visual pode ajudar a criar experiências visuais ideais.

    Visão à distância prejudicada: a DVC pode afetar a capacidade da criança de ver objetos distantes, especialmente quando há fundos complexos. Se os objetos distantes estiverem aglomerados ou complexos (como no corredor da escola), a criança pode ter dificuldade de visão à distância.

    * Utilizar recursos visuais maiores e de alto contraste, bem como posicionar a criança mais perto dos materiais instrucionais, pode melhorar seu acesso visual.

    Reflexo visual de piscar prejudicado: As crianças com DVC podem não piscar tão rapidamente ou reagir tão rapidamente quando as coisas se aproximam muito dos seus olhos. É importante estar atento à proximidade dos objetos e garantir sua segurança durante atividades guiadas visualmente.

    Preferência por objetos familiares: Crianças com DVC, muitas vezes, encontram conforto em objetos familiares que seus cérebros reconhecem facilmente.
    Esses objetos proporcionam uma sensação de familiaridade e podem ajudá-los a se sentirem mais seguros em seu ambiente visual.

    * Objetos familiares tranquilizam. Então, traga os itens preciosos – eles são como pequenos cobertores de segurança para uma criança com o mundo visual da DVC.

    Alcance visualmente guiado prejudicado: Quando se trata de agarrar objetos, as crianças com DVC podem ter dificuldade para olhar e alcançar ao mesmo tempo. Orientação verbal e toque gentil podem ser muito úteis.

    A compreensão destas características da DVC pode orientar pais e professores na criação de ambientes de apoio e na implementação de estratégias que promovam experiências visuais ideais para crianças com DVC. Ao reconhecer e atender às suas necessidades visuais únicas, podemos ajudá-los a navegar pelo mundo com maior confiança e sucesso.

    Quais são os comportamentos associados à Deficiência Visual Cerebral (DVC)?

    Crianças com DVC podem apresentar diversos comportamentos indicativos de sua deficiência visual.

    Vamos explorar os comportamentos das crianças com DVC através de exemplos:

    Respostas anormais à luz: Os alunos podem apertar os olhos e se afastar de luzes fortes, indicando sensibilidade à luz.

    Evitar contato visual e olhar social: Um aluno pode ter dificuldade em estabelecer contato visual durante as interações sociais, muitas vezes desviando o olhar ou concentrando-se em áreas periféricas.

    Fadiga devido a tarefas visuais: Os alunos podem apresentar sinais de cansaço e diminuição do envolvimento visual após períodos prolongados de estimulação visual.

    Dificuldade com estímulos visuais em ambientes complexos: Alguns indivíduos com DVC podem achar difícil localizar e observar visualmente objetos em ambientes movimentados e visualmente desordenados(poluídos). Você pode observar alunos com DVC trazendo objetos ou brinquedos até o nariz.

    Dificuldade com campo visual: A perda de campo visual é comum em crianças com DVC, especialmente no campo inferior. Isso significa que elas, podem ter dificuldade em contornar obstáculos, dificuldade em descer escadas, dificuldade em ver coisas planas em uma superfície à sua frente, etc.

    Colapsos na presença de sobrecarga sensorial (crises): Um colapso é como uma criança com DVC pode responder à sobrecarga sensorial.

    Algumas coisas que podem desencadear um colapso na DVC são: Confusão visual, lugares movimentados, ruídos altos e lugares desconhecidos.

    Um colapso pode parecer uma criança gritando ou chorando, caindo no chão, tentando sair do local ou comportamento agressivo. O colapso na DVC não é culpa do indivíduo. O colapso na DVC não é culpa sua. Tente encontrar um lugar tranquilo para a criança ir caso um colapso ocorra ou esteja prestes a ocorrer. Dê tempo à criança para se acalmar e se sentir segura novamente.

    Certifique-se de observar sinais de sobrecarga ou exaustão. Isso pode significar que é hora de sair ou fazer uma pausa.

    Quais são algumas estratégias para o manejo na Deficiência
    Visual Cerebral?

    Apoiar crianças com DVC requer a adoção de estratégias de intervenção adequadas.

    Aqui estão algumas estratégias de gestão eficazes para educadores que trabalham com uma criança com DVC:

    Prepare o cenário: minimize a confusão visual nas paredes removendo pôsteres, obras de arte e decorações. Mantenha as coisas simples e visualmente organizadas para ajudar o aluno a se concentrar. Forneça um espaço ou canto silencioso e organizado, se possível.

    O contraste é fundamental: Utilize materiais com alto contraste e imagens nítidas para melhorar o reconhecimento e a compreensão visual. Cores fortes e contrastes nítidos podem fazer uma grande diferença para estudantes com DVC. Uma criança pode ser capaz de ver coisas que estão um pouco mais distantes se forem grandes ou estiverem contra um fundo sólido.

    Ilumine o seu mundo: A luz pode ser usada para chamar a atenção de uma criança. Uma mesa de luz pode ser uma ferramenta comum para usar com crianças com DVC. Algumas outras maneiras de incorporar luz são através de janelas/luz natural, lâmpadas, brinquedos que acendem, iPad/tablet ou lanterna.

    Equilibre a exposição multissensorial: certifique-se de permitir que a criança explore novos itens sem ruído. Isso ocorre porque algumas crianças com DVC têm dificuldade em usar a visão quando há informações auditivas concorrentes.

    Adaptar materiais de aprendizagem: Ao adaptar livros ilustrados para alunos com DVC, você pode controlar muitas características do livro.

    Experimente estas estratégias para adaptar um livro para um aluno com DVC:

    • Adicionar fundo preto/sólido
    • Adicionar fonte com bolhas ou ampliada
    • Destaque os conceitos importantes
    • Adicione estímulos táteis.

    Você pode começar facilmente experimentando a minha série de livros para DVC:
    Adapted Books Starter Pack. Esses livros adaptados para DVC apresentam aos alunos letras, números e formas.

    Existem três habilidades (sons iniciais das letras, contagem e formas) focadas na série de livros: Starter Pack Adapted Books Bundle. Este pacote é perfeito para alunos com DVC, alunos com outras deficiências visuais, alunos com autismo ou alunos que precisam de uma abordagem multissensorial.

    Cada página desses livros utiliza um fundo preto e imagens coloridas e de alto contraste.

    Existem várias versões de cada livro incluídas, para que você possa usar o nível que seu aluno precisa!

    Junte-se a especialistas: a colaboração é fundamental! Trabalhe em estreita colaboração com uma equipe de especialistas para desenvolver um plano individualizado que atenda às necessidades visuais específicas da criança. Esses especialistas podem incluir oftalmologistas e terapeutas ocupacionais.

    Use ferramentas: explore tecnologias adaptadas e suportes visuais que podem ajudar a criança a acessar materiais educacionais. Use plano inclinado e quadros de feltro pretos para garantir que os materiais estejam no campo visual preferido da criança.

    Siga o plano: crie rotinas consistentes e previsíveis com cronogramas visuais. Usar cronogramas visuais com ícones grandes e simples ajuda o aluno a antecipar e fazer a transição entre as atividades, promovendo a independência e reduzindo a ansiedade.

    Ilumine corretamente: otimize as condições de iluminação na sala de aula. Ajuste a iluminação para reduzir o brilho e melhorar a visibilidade, facilitando a percepção e a atenção da criança aos estímulos visuais.

    Forneça tempo de espera extra: fornecer tempo de espera é essencial. Ao apresentar um item a uma criança com DVC, dê a ela tempo para processar o item. O tempo de espera pode ser difícil e desconfortável. Aqui vai uma dica para ajudar: quando você acha que já deu tempo suficiente, espere mais!

    Lembre-se, cada criança com DVC é única, por isso é importante personalizar as intervenções com base em suas necessidades e preferências individuais. Ao implementar essas estratégias, os educadores podem criar um ambiente de aprendizagem inclusivo e de apoio para crianças com DVC.

    Deficiência visual cerebral (DVC) é uma condição complexa que requer uma compreensão abrangente de suas características, causas, estratégias de gerenciamento, comportamentos e suporte em sala de aula.

    Ao reconhecer e abordar as necessidades únicas de crianças com DVC, podemos criar ambientes inclusivos que promovam seu desenvolvimento visual e bem-estar geral. Por meio da implementação de estratégias e suportes apropriados, podemos ajudar crianças com DVC a prosperar e atingir seu potencial máximo.

    Este texto foi escrito por Melissa Chalme (@specialachiecers), Multiple Disabilities teacher. Você pode encontrá-lo em https://specialachieversblog.com/cortical-visual-impairment/

    Tradução e adaptação livre pela Associação Comunicatea®.

  • ABANDONO DO DISPOSITIVO DE CAA

    ABANDONO DO DISPOSITIVO DE CAA

    Imagem: www.inspireconnectionstherapy.com

    Por Lauren Greenlief. Tradução e adaptação livre pela Associação Comunicatea®.        

    A CAA é uma ferramenta poderosa que capacita os indivíduos a expressar seus pensamentos, sentimentos e necessidades de maneira eficaz. Infelizmente, há muitos casos de abandono de dispositivos, o que significa que o dispositivo não é mais usado por vários motivos. Alguns dos fatores comuns sobre o abandono do dispositivo incluem:

    1. Falta de treinamento e suporte

    O treinamento adequado e o suporte contínuo são essenciais para os usuários de CAA e seus cuidadores. Sem instrução e orientação adequadas, os usuários e cuidadores podem ter dificuldade em utilizar o dispositivo de forma eficaz, levando à frustração e eventual abandono.

    2. Personalização limitada

    As necessidades de comunicação de cada usuário são únicas e uma abordagem singular pode não ser adequada. Personalizar o dispositivo para atender às preferências e estilos de comunicação individuais é essencial para um envolvimento de longo prazo.

    3. Estigma social

    Infelizmente, alguns indivíduos enfrentam estigma social e sentem-se envergonhados ou desconfortáveis ​​ao utilizar os seus dispositivos de CAA em público. Esta percepção negativa pode desencorajá-los de confiar nos seus dispositivos.

    4. Perspectivas dos parceiros de comunicação

    Os parceiros de comunicação podem não estar mentalmente preparados para ajudar e apoiar o uso da CAA, o que acaba por levar a percepções negativas do dispositivo e ao abandono.

    Agora que entendemos alguns dos motivos do abandono de dispositivos, o que podemos fazer para ajudar a apoiar a CAA e evitar que esses dispositivos fiquem em uma prateleira ou na mochila?

    1. Treinamento e suporte abrangentes

    Ofereça treinamento aos usuários e seus cuidadores sobre como utilizar o dispositivo de CAA de maneira eficaz.

    Incentive o treinamento contínuo de habilidades.

    Procure apoio de outras pessoas que também usam CAA.

    2. Personalização do dispositivo

    Trabalhe em estreita colaboração com os usuários para personalizar o dispositivo, incluindo vocabulário, símbolos e interface, para corresponder às preferências de comunicação do usuário.

    Certifique-se de atualizar as configurações do dispositivo com base na evolução da identidade do usuário.

    3. Aumente a conscientização e promova a aceitação

    Torne a CAA visível; quanto mais pessoas a veem, mais inclusiva ela se torna.

    Continue a educar familiares e amigos sobre a importância e o impacto da CAA.

    4. Enfrente os desafios de mentalidade dos parceiros de comunicação

    Tenha conversas francas com parceiros de comunicação, discuta suas preocupações e apoie-os onde quer que estejam.

    Certifique-se de apoiá-los em cada etapa do processo!

    Podemos combater o abandono de dispositivos de CAA e apoiar todos os indivíduos que necessitam da CAA. Com treinamento contínuo, ambientes positivos e conversas atenciosas, podemos tirar esses dispositivos de CAA da mochila ou prateleira e observá-los a desbloquear o acesso à comunicação.

    Este texto foi escrito por Lauren Greenlief, fonoaudióloga e fundadora da Inspire Connections Therapy LLC, em 14/08/2023. Você pode encontrá-lo em https://www.inspireconnectionstherapy.com/blog/aac-device-abandonment.
    Tradução e adaptação livre pela Associação Comunicatea®.

  • Comunicação Suplementar e Alternativa na atuação em Cuidados Paleativos

    Comunicação Suplementar e Alternativa na atuação em Cuidados Paleativos

    Imagem desenvolvida por Freepik

    Escrito pela fonoaudióloga Natálie Iani Goldoni

             Se é cuidado, dignidade e conforto, é nos cuidados paliativos o caminho de dentro. Essa é uma abordagem de assistência que melhora a qualidade de vida de indivíduos e seus familiares que enfrentam problema associado a doenças que ameacem a vida ou potencialmente fatais, na busca pela prevenção e alívio do sofrimento com a identificação precoce; avaliação e tratamento ​​da dor e de outros problemas físico, social, espiritual, emocional e familiar.

             Se é conexão, expressão e recepção, é na comunicação suplementar e alternativa (CAA)[1] o caminho de dentro. Essa é uma área que compreende recursos e sistemas que possibilitam a comunicação de pessoas que tem o impedimento de se comunicar por meio da fala, que não se apropriam de sua voz,  da leitura ou mesmo da escrita, que apresentam a ininteligibilidade da fala, e isso tudo em qualquer época do ciclo de vida, auxiliando desde crianças a idosos que sofreram acidentes ou patologias que comprometeram sua comunicação, na intenção de auxiliar a expressão e a recepção da comunicação contemplando seus desejos e necessidades.

             A comunicação suplementar e alternativa nos cuidados paliativos requer escuta ativa para a família e para a comunicação não verbal da pessoa sem a comunicação pela fala; requer o toque que vai diminuir a distância entre os interlocutores, foco no momento presente, requer a comunicação que traga a compreensão e cuidado com o outro[2] e modificações das estratégias por vezes também dos recursos de CAA que poderão variar no cuidado por todo ciclo da vida até a fase final de vida. Assim, a mensagem oferecida e a expressão da informação pelo sistema que será escolhido pela pessoa sem a comunicação pela fala de acordo com suas necessidades, terá a atuação do fonoaudiólogo paliativista, seguido das adequações e adaptações dos recursos com a atuação do terapeuta ocupacional paliativista e demais especialistas da área. Esse todo contempla a essência da comunicação suplementar e alternativa na atuação em cuidados paliativos.[3]

    Portanto, comunicação suplementar e alternativa na atuação em cuidados paliativos é o ar que falta, é a sensação de que ele está se perdendo mas que quando você menos espera te traz fôlego. Como toda vida humana há desafios, tem beleza e tem espaços habitáveis. Naqueles em que não podemos habitar a CAA toma partido, ela inicia no momento da escolha: ou vai ou não vai.

    Se vai, há esperança…

    Não dá pra dissociar, quando alguém que vivencia o cuidado paliativo agarra a comunicação alternativa, certamente esse alguém vive o encontro com a liberdade.

    Ser livre é também ter acesso a comunicação. Liberdade é também ter acesso a comunicação suplementar e alternativa.

    Nos cuidados paliativos a comunicação suplementar e alternativa dá sustentação ao manto que protege o enfermo e o aflito, ampara e conforta a dor.

    Nas dimensões humanas, a comunicação suplementar e alternativa permite enxergar sem os olhos, escutar sem os ouvidos, tatear sem as mãos e falar sem a boca. Se a dor é física até cinco sintomas em média eu consigo verificar que existem, e isso não sou eu quem digo, é a ciência quem garante.

    Se a dor é social eu consigo saber que um armário de uma residência está com problema e prestes a desabar a qualquer momento, local esse em que passa gatinhando o bebê de uma mãe enferma; posso ainda saber da necessidade dos pagamentos prestes a ainda serem feitos, do atestado de saúde que vai garantir que esse enfermo que virá a óbito em breve necessita entregar ao RH da empresa, pois teme perder o emprego; ou a prestação do carro que precisa ser paga até dia dez, quando esse aflito teme por morrer antes da prestação terminar de ser paga…posso também saber que aquela criança enferma e que está em sua fase final de vida não se preocupa com sua doença, mas se seus pais ficarão bem e se irão parar de chorar, ou mesmo se seu cachorro de estimação terá com quem brincar. E isso tudo não sou eu quem estou dizendo, mas me contaram as pessoas que se apropriaram da comunicação suplementar enquanto vivenciavam uma doença potencialmente fatal.

    Na urgência, na pressa o que para alguns o que vale é amar, para outros é a materialidade, para outros a fé, para outros os encontros e para outros a despedida…me perdoa, te perdoou, me deixe partir, preciso ir, fica bem, vou sentir saudade, eu te amo. Na comunicação suplementar e alternativa se será uma imagem, se serão os dispositivos favorecedores da fala ou recursos de alta ou baixa tecnologia que irão compor com outras estratégias uma ação em CAA, não implica que de fato alguém irá se comunicar, mas oferecer, ou melhor servir, esse sim talvez seja o princípio, o meio e o fim.

    Se a dor é emocional amar é o que interessa mais? Nem sempre, mas daí que vem a liberdade. Estigmas, jamais! Dar escuta é por princípio um direito e, um dever. É estar presente e inteiro sem julgamentos e servindo modelamos muito mais que a comunicação suplementar e alternativa, modelamos amor.

    Se a dor é espiritual nem sempre é sobre fé, mas ela se propaga nos corações mais aflitos. Às vezes é sobre uma canção, um abraço, um poema, um sentar frente a frente, um segurar a mão e muitas vezes é sobre silêncio.

    A comunicação suplementar e alternativa na atuação em cuidados paliativos traz a essência do humano, se é sublime, se é pagão, se é amor, se é ódio, se é saudade, se é perdão, se é luz, se é escuridão, se é som ou se é silêncio a comunicação suplementar e alternativa carregará despedida, perdão, saudade. Sejam letras, palavras, frases, em papel ou em tablete, qual o recurso ou qual a ferramenta, talvez a estratégia? Todos fazem sentido aos que sentem. Quem sente dor só se sabe só, mas quando partilha renasce.

    Mas então, quanto será que uma imagem impacta vida humana quando mais nenhuma palavra sai pela boca? Eu te convido: acende essa luz daí?

    Comunicação Suplementar e alternativa na atuação em Cuidados Paliativos é luz acesa…

    Referências

    1. Arantes, A. C. Q. Pra vida toda valer a pena viver- pequeno manual para envelhecer com alegria. Editora Sextante: São Paulo, 1 Edição, p. 160, 2021.
    2. American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Competencies for speech-language pathologists providing services in augmentative communication. ASHA. 1989,31(3):107-10.
    3. Costello JM, Last words, last connections: how augmentative communication can support children facing end of life. ASHA Lead 2009;14:8–11.
    4. Goldoni, N.I.; Lourenço, G. F. A Comunicação Alternativa nos Cuidados Paliativos Pediátricos: contribuições para o Alívio da Dor e do Sofrimento. In: Esther Angélica Luiz Ferreira; Silvia Maria de Macedo Barbosa; Simone Brasil de Oliveira Iglesias. Cuidados Paliativos Pediátricos. MedBook Editora: Rio de janeiro, 2022.
    5. World Health Organization: Definition of Palliative Care [internet]. Geneva: World Health Organization; 2016 [cited 2024 Feb 21]. Available from: http://www.who.int/cancer/palliative/definition/en/

    Esse texto foi escrito pela fonoaudióloga Natálie Iani Goldoni para a Associação Comunicatea®.


    [1] O termo original em inglês Augmentative and Alternative Communication (AAC) tem sido traduzido para o Brasil como Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA), Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA) e Comunicação Alternativa (CA), e correspondem ao mesmo constructo. No presente texto, adotar-se-á o termo comunicação Suplementar e alternativa.

    2  A ideia de do trecho vem a partir da expressão “ COMUNICAÇÃO COMPASSIVA “ que é trazida pela autora  Dra Ana Cláudia Quintana Arantes em seu  livro “Pra vida toda valer a pena viver- pequeno manual para envelhecer com alegria. Editora Sextante: São Paulo, 1 Edição, p. 160, 2021.” No livro a autora, autora se debruça a nos trazer os “ 4 Cs” da comunicação compassiva, oportunizando  ferramentas para  a comunicação que traga compreensão e cuidado com o outro na perspectiva dos cuidados paliativos.

    [3] Definição de comunicação alternativa na atuação em cuidados paliativos em: : Goldoni, N.I.; Lourenço, G. F. A Comunicação Alternativa nos Cuidados Paliativos Pediátricos: contribuições para o Alívio da Dor e do Sofrimento. In: Esther Angélica Luiz Ferreira; Silvia Maria de Macedo Barbosa; Simone Brasil de Oliveira Iglesias. Cuidados Paliativos Pediátricos. MedBook Editora: Rio de janeiro, 2022.

  • CAA E AUTISMO

    CAA E AUTISMO

    Imagem arquivo pessoal.

    2 de abril

    Escrito pela mãe e fonoaudióloga Patricia Coutinho.

    Meu nome é Patricia e tenho quatro filhos: Lucas, Pedro, Gabriel e Maria. Pepeu e Gabi foram diagnosticados aos dois anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desde então, foram tantas intervenções e tratamentos que buscamos, que certamente eu me esqueceria de alguma se fosse aqui elencar. Entretanto, dentre tantas escolhas, uma eu nunca vou me esquecer e sempre vou dar destaque na nossa história: a escolha (tardia, confesso) de começar com a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) com os meus filhos aos quatro anos de idade.

    Naquela época – 13 anos atrás – as informações sobre CAA eram muito escassas e contraditórias, alguns profissionais indicavam, mas muitos nem a conheciam. Muitas eram minhas inseguranças e dúvidas. Eu não conhecia nenhuma família que utilizava um sistema e pudesse me falar sobre os seus benefícios. Fiquei com muito medo de introduzir a CAA e meus filhos nunca falarem por uma escolha minha. Também achava que eles não tinham a capacidade de entender os desenhos dos pictogramas porque eram muito “abstratos”. E, nesse processo, somente após um ano refletindo, superei os meus conflitos e começamos a CAA com meus filhos. E foi a melhor decisão de todas!

    Após tantas expectativas frustradas no processo de tratamento do TEA, finalmente tínhamos acertado. Comportamentos chamados como “inadequados” diminuíram sensivelmente, birras “desapareceram” e, o mais importante: um sorriso lindo de:“mãe agora consigo dizer o que eu quero”, surgiu nos rostinhos de meus filhos. Tudo mudou para melhor naquela época. Impossível expressar o que eu senti quando comecei a entender os desejos deles através de trocas de figuras! E, a felicidade indescritível quando algum tempo depois, surgiram as primeiras palavrinhas.

    Mas como nem tudo acontece como planejado, quando meus filhos começaram a falar pequenas frases, recebi a orientação  (equivocada, mas comum na época) de que não era mais necessário utilizar CAA, porque eles já estavam falando. Depois disso, o desenvolvimento da linguagem de meus filhos diminuiu sensivelmente, sendo que até hoje, mesmo com a reintrodução da CAA, os prejuízos são indiscutíveis. Essa foi uma decisão que me arrependo, mas que não me desanimou; sigo presumindo sempre o potencial deles, validando e, festejando, toda e qualquer forma de comunicação!

    E, com esse relato busco incentivar e alertar a todos os pais ou profissionais que tenham filhos ou pacientes com qualquer dificuldade de comunicação, a começar o quanto antes com a CAA, porque essa foi a minha melhor escolha até os dias de hoje!

    Todos merecem ser ouvidos e compreendidos, e um sistema de CAA personalizado é um recurso poderoso para atingir esse direito, ainda que o indivíduo já tenha o recurso da fala. Por experiência própria, não superestimem a fala, o desenvolvimento da linguagem é um processo muito mais complexo. Busquem e defendam o direito dos seus filhos ou pacientes de serem ouvidos em todos os sentidos, em todos os lugares e com todos ao seu redor. E, nessa busca, não duvidem: a CAA é o recurso que mais vai ajudá-los!

    Esse texto foi escrito pela mãe e fonoaudióloga Patricia Coutinho, para o projeto “CAA e o mês da Conscientização” da Associação Comunicatea®.

  • CAA E SÍNDROME DE DOWN

    CAA E SÍNDROME DE DOWN

    21 de março

    Imagem desenvolvida por Freepik

    Escrito pela fonoaudióloga Adriana Peres

    Olá, eu sou a Adriana Peres, fonoaudióloga clínica e sou apaixonada pela intervenção em linguagem com o auxílio da CAA no atendimento de crianças, jovens e adultos com necessidades complexas de comunicação (NCC).

    Hoje é o dia internacional da SD que tem como importantes objetivos celebrar a vida das pessoas com a síndrome e lutar contra o capacitismo. São realizadas ações em todo o mundo com o objetivo de conscientizar a sociedade para que elas tenham os mesmos direitos e oportunidades de qualquer pessoa.

    É um momento oportuno para falarmos sobre o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) nesta população, uma vez que para algumas pessoas com SD ele pode ser fundamental para garantir o DIREITO à comunicação, favorecer sua integração social e possibilitar uma vida com mais autonomia.

    Pessoas com SD podem apresentar dificuldades para resolver seus desafios diários de comunicação devido a uma associação de fatores. Além do comprometimento intelectual podem ter alterações em suas habilidades auditivas, visuais e táteis, na memória de curto prazo e no prejuízo da inteligibilidade de fala, que pode envolver não só os aspectos motores da fala, mas também incluir vários aspectos linguísticos. A falta de oportunidades e estímulos adequados à idade da pessoa com SD também pode contribuir para os problemas de comunicação bem como para o atraso no seu desenvolvimento global. Poderia citar vários outros aspectos mas quero focar nossa conversa não nas dificuldades que a pessoa com SD pode encontrar para se comunicar e interagir mas no quanto poderá se beneficiar do uso de recursos e estratégias de CAA nas diferentes fases de sua vida.

    O uso de recursos e estratégias de CAA pode favorecer a aquisição e desenvolvimento de fala e linguagem da criança com SD, sua inclusão escolar e seu processo de letramento e alfabetização. A entrada de jovens e adultos no mercado de trabalho e o enfrentamento dos desafios do envelhecimento frente ao declínio cognitivo desta fase também podem ser beneficiados.

    O uso da CAA no atendimento de pessoas com SD vem crescendo na prática clínica no Brasil. Esse tema tem sido cada vez mais frequente em cursos, aprimoramentos e congressos. Além disso, os fonoaudiólogos têm recebido cada vez mais crianças pequenas para intervenção de linguagem com o uso de CAA encaminhadas por outros colegas, médicos pediatras, neurologistas e até psiquiatras. As famílias também têm buscado conhecer melhor essa abordagem devido à uma maior divulgação da área. Isso é motivo de comemoração, mas sabemos que ainda há um número muito maior de pessoas que poderia se beneficiar. O mito de que o uso da CAA interfere no desenvolvimento da fala ainda é muito presente embora vários estudos científicos e nossa prática clínica evidenciem o contrário. Isso faz com que muitas vezes familiares e até mesmo alguns profissionais façam um grande investimento no desenvolvimento e evolução da fala e a intervenção em linguagem com o apoio da CAA é visto como última alternativa.

    Vale ressaltar que no caso dos transtornos motores de fala é fundamental o acompanhamento de um fonoaudiólogo com expertise nesta área para um trabalho específico. Nesses casos, usar CAA não garante a evolução da fala. Da mesma forma, falar, “articular palavras” não é garantia de uma boa comunicação. Em alguns casos, mesmo se comunicando oralmente, uma pessoa com SD pode se beneficiar do uso de CAA principalmente em ambientes e contextos com parceiros de comunicação não familiares ou quando existem importantes desafios no uso da linguagem.

    Na minha opinião o trabalho deve ser realizado de forma conjunta. Nossa comunicação é multimodal, fazemos uso de gestos,expressões faciais, escrita, desenhos, etc., além da fala. Até quando esperar pela fala? A comunicAÇÃO tem pressa. Precisamos proporcionar uma forma de comunicação que garanta as necessidades da pessoa com SD bem como favorecer sua linguagem. Comunicação, fala e linguagem caminham juntas.Na minha prática clínica atendo pessoas com SD em diferentes fases da vida que usam CAA e me encanto com cada uma que passa a fazer suas próprias escolhas, expressar seus sentimentos e desejos, “tirar sarro da terapeuta”, fazer surpresas, conhecer novos lugares, realizar sonhos e, principalmente, ser autora do seu próprio discurso.

    Meu desejo neste dia é que possamos ACREDITAR no POTENCIAL das pessoas com Síndrome de Down. Que sejamos ponte para que elas atinjam seus objetivos pessoais, que estejam onde querem estar, fazendo o que tem sentido para elas e não o que nós queremos que façam. Isso depende muito menos delas do que dos recursos e ferramentas e oportunidades que, cada um de nós, seus parceiros de comunicação, lhes oferecemos. Essas pessoas precisam ser vistas além do diagnóstico. Ele faz parte da pessoa mas não pode defini-la. Rótulos e preconceitos precisam ser derrubados.Tenho muitas histórias lindas para contar que a CAA ajudou a escrever mas isso fica para outra oportunidade 🌻.

    Esse texto foi escrito pela Fonoaudióloga Adriana Peres para o projeto “CAA e o mês da Conscientização” da Associação Comunicatea.

  • PRINCIPAIS DICAS PARA APOIAR PROCESSADORES GESTALT DA LINGUAGEM

    PRINCIPAIS DICAS PARA APOIAR PROCESSADORES GESTALT DA LINGUAGEM

    Imagem: www.inspireconnectionstherapy.com

    Por Lauren Greenlief. Tradução e adaptação livre pela Associação Comunicatea®.        

    O Processamento Gestalt da Linguagem tem sido uma novidade no mundo da fonoaudiologia há mais de um ano. É, resumidamente, a ideia de que os indivíduos aprendem a linguagem através de um agrupamento de palavras em vez de palavras isoladas (Processadores Analíticos). Pode ser algo assim:

    – Criança encerra seu projeto de arte e está muito orgulhosa de seu trabalho:

    O Processador Gestalt da Linguagem pode dizer “Nenhum Troll deixado para trás”, porque no filme Trolls, quando eles dizem essa citação, eles ficam muito orgulhosos e começam a comemorar!

    O Processador Analítico pode dizer: “Olhe” ou “Acabei” animado e pronto para compartilhar sua criação.

    Ambas as formas de processar/aprender a linguagem são relevantes e importantes, e se você conversar com PGLs adultos, eles dirão que nem sempre é clara a forma que você processa a linguagem.

    Então, com essa breve visão geral do desenvolvimento da linguagem, como damos suporte aos nossos Processadores Gestalt da Linguagem?

     Vamos falar sobre o Estágio 1 hoje. Isso faz parte da estrutura de Aquisição Natural de Linguagem desenvolvida por Marge Blanc. O Estágio 1 é a fase inicial e consiste em ecolalia/script.

    A COMUNICAÇÃO É IMPORTANTE

    Precisamos considerar todos os esforços de comunicação por parte dos indivíduos. Isso significa que precisamos considerar os scripts. Esse reconhecimento pode parecer diferente, e incluir acenar com a cabeça, repetir as palavras e responder à mensagem. A parte importante aqui é que o Processador Gestalt da Linguagem se sinta bem e que suas palavras tenham um propósito.

    APOIAR O CRESCIMENTO DA LINGUAGEM

    Como discutimos acima, o Processamento Gestalt da Linguagem é totalmente válido. Queremos apoiar o crescimento da linguagem e não mudá-lo. Gestalts/Scripts/Ecolalia sempre estarão presentes na linguagem. Não temos uma missão de substituir a linguagem, mas sim uma missão de ajudar os indivíduos a desenvolver uma nova linguagem. Para fazer isso, NÃO estamos alterando a linguagem deles. Estamos oferecendo opções e mais oportunidades linguísticas para que eles cresçam e aprendam.

    MANTENHA NATURAL

    O maior desafio que vejo são as pessoas não saberem o que modelar. O problema é o seguinte: se você está procurando uma lista, você está pensando demais nela. Procuramos uma linguagem NATURAL. Pense no que você normalmente diria durante esta atividade e comece a modelar isso. Lembre-se de que os gestalts iniciais geralmente estão associadas a um forte significado emocional. Mantenha a diversão.

    A ENTRADA/INPUT IMPORTA

    Quando apoiamos qualquer tipo de crescimento linguístico, queremos ter certeza de que o que estamos dizendo é uma boa contribuição. Queremos aumentar nossos comentários e diminuir nossas perguntas. Fazemos isso por alguns motivos:

    1. Diminuir as perguntas diminui a pressão para se comunicar

    2. Permite modelar mais linguagem e diferentes funções comunicativas

    3. Ninguém quer ser questionado o dia todo

    Este texto foi escrito por Lauren Greenlief, fonoaudióloga e fundadora da Inspire Connections Therapy LLC, em 05/09/2023. Você pode encontrá-lo em https://www.inspireconnectionstherapy.com/blog/top-tips-for-supporting-gestalt-language-processors. Tradução e adaptação livre pela Associação Comunicatea®.