Da dúvida à prática: como a CAA transformou meu olhar na escola

Meu nome é Amanda, sou pedagoga e especialista em neurociência aplicada à educação. Fui professora por 10 anos e atuo na inclusão há 9. Hoje, quero compartilhar um pouco da minha experiência com a Comunicação Aumentativa e Alternativa em minha prática.

Quando falamos sobre a CAA na escola, falamos de acessibilidade, escuta, inclusão e pertencimento. Mas também falamos de uma prática que gera dúvidas, questionamentos e, muitas vezes, inseguranças. E, comigo, não foi diferente.

Quantas vezes me perguntei: como tornar isso prático? Como fazer fluir? Como usar de forma funcional na rotina da sala?

Essas perguntas me inquietavam e, se eu puder te dizer algo, eu diria: comece.

Conheça seu aluno, vocês serão parceiros e o que ele mais precisa é de um bom parceiro de comunicação, esse é o ponto de partida. Estruture a rotina, antecipe atividades, use palavras-chave, organize o planejamento e compartilhe com a equipe.

E não se esqueça: a comunicação precisa estar presente, disponível, pronta para ser usada. Não faz sentido tê-la e não utilizá-la. Seja com recursos de CAA de baixa tecnologia (impressos) ou de alta tecnologia (eletrônicos), o mais importante é que ela esteja ao alcance do aluno, no momento em que ele precisa se comunicar.

Quando comecei, acreditava que a CAA estava ligada apenas à adaptação de materiais e os pictogramas estavam sempre associados às atividades, como um apoio visual para executar tarefas, tudo era novo para mim. Eu produzia materiais visualmente bonitos, mas ainda restritos a esse uso.  Até entender que os pictogramas são, antes de tudo, linguagem, ferramentas de comunicação que ampliam a possibilidade de expressão, compreensão e participação do aluno em todos os momentos, e não apenas nas atividades.

A partir dessa compreensão, novos passos começaram a ser construídos. Antes de tudo, foi necessário exercer gentileza, com meu aluno e também comigo, afinal, tudo era novo para nós. Iniciei com escolhas simples, como pedir uma cor de caneta ou lápis. Depois, ampliei para momentos coletivos. Passei a apresentar opções, tornar instruções mais acessíveis e transformar perguntas em oportunidades de participação coletiva.

Jamais vou esquecer do dia em que programei as chamadas, em que cada aluno, no lugar de responder “presente”, respondia com um animal, pois eu sabia que meu aluno amava animais. Ele, com ajuda, respondeu à chamada pela primeira vez. Seus olhos traduziam sua alegria, o sorriso apareceu de forma sutil naquele dia e, depois, se tornou constante em nossas chamadas diárias.

E algo muito bonito aconteceu: aos poucos, a turma passou a esperar pela resposta dele. Ainda que com ajuda, ele passou a ter tempo, espaço e oportunidade.

Meu próximo passo foi pensar em possibilidades em que os alunos se tornariam parceiros de comunicação. Então, sempre que os colegas direcionavam perguntas a mim, eu devolvia: “Você pode perguntar para ele? Vamos ver o que ele acha?”. Eu ajudava na construção dessa resposta, e todos vibravam.

É nesse movimento que a sala se transforma. Não é de um dia para o outro, mas com constância, entendendo que todos fazem parte. Seu aluno precisa de modelo.

Precisamos nos tornar parceiros de comunicação, pessoas que não apenas perguntam, mas esperam, apoiam e constroem juntos cada possibilidade de expressão.

E foi nesse processo que vivi experiências que me marcaram profundamente. Conheci gostos que talvez nunca descobrisse se não fosse a CAA. E mais, descobri coisas de que ele não gostava, mesmo quando todos nós acreditávamos que sim. Acredita? Isso me fez refletir o quanto, muitas vezes, supomos pelo outro sem, de fato, escutá-lo.

Acompanhei meu aluno apresentando trabalhos, sendo ouvido, mostrando suas preferências. Vi crescer sua autonomia para participar, opinar e realizar atividades.

Essa experiência não vivi apenas uma vez; tive inúmeras oportunidades de presenciar, na prática, os benefícios da CAA com outros alunos e de diferentes formas, muitas das quais não caberiam neste pequeno relato. Ser ouvido não é um detalhe, é essencial. É o que nos dá lugar. E basta pensar: como nos sentiríamos se não pudéssemos expressar o que pensamos, queremos ou sentimos?

Ao longo do caminho, busquei formações, apoio e trocas com outros profissionais e fui compreendendo que não precisamos ter todas as respostas. Esse percurso foi essencial para o crescimento na prática, para construir segurança e, aos poucos, me aprimorar e me transformar, lapidando o meu olhar, afinando a escuta e aprendendo, dia após dia, a ser mais disponível.

Hoje, a CAA tem se tornado mais acessível e mais discutida. Temos recursos, materiais, formações, aplicativos gratuitos e profissionais compartilhando caminhos e práticas incríveis, que nos servem como norte e nos abrem caminhos. Não tenha medo.

Comunicar-se é um direito.

Comece com um passo. Depois, dê outro.

Minha intenção é abrir caminhos, trazer possibilidades e te convidar a viver essa experiência. Que seus alunos tenham oportunidades reais de se comunicar, de serem ouvidos, compreendidos e participantes.

E, com o tempo, você também vai perceber o quanto isso transforma.

Até que, um dia, quase sem perceber, você pense: “Uau… não é mais possível, na minha prática, não apoiar a comunicação.”

Porque, quando a comunicação acontece de verdade, ela transforma tudo, inclusive quem ensina.

 AMANDA APARECIDA REIS SILVA

Formação
Pedagoga, com especialização em Neurociência aplicada à Educação.

Experiência Profissional

Educadora com 19 anos de experiência na área da educação. Possui 10 anos de atuação em sala de aula e coordenação pedagógica, com desenvolvimento de estratégias de ensino e liderança de equipes educacionais.
Nos últimos 9 anos, dedica-se à área da inclusão, atuando diretamente na promoção de práticas que garantam o acesso e a participação de todos os alunos no contexto escolar.

Atualmente, é idealizadora da marca Conheça-me, por meio da qual realiza trabalho especializado com adaptações pedagógicas, orientações a famílias e escolas, planejamento individualizado e formações voltadas à educação inclusiva.  

Minha rede social é:  @conhecameinclusao

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