A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) não entrou na minha vida de forma imediata — ela foi sendo construída ao longo da minha caminhada como educadora, inquieta diante das limitações que a escola tradicional impõe a alunos que não se comunicam da forma esperada.
Sou formada em Filosofia e Pedagogia, com especializações em Educação Inclusiva, Psicopedagogia e Análise do Comportamento Aplicada. Sempre atuei com o compromisso de compreender o sujeito em sua totalidade, mas foi no contato direto com crianças autistas e com necessidades complexas de comunicação que percebi que algo essencial ainda faltava: garantir, de fato, o direito à comunicação.
Minha aproximação mais profunda com a CAA também se deu a partir da experiência em atendimento clínico. Tudo começou em um acompanhamento realizado em parceria com uma fonoaudióloga, onde tive a oportunidade de vivenciar, na prática, o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa como ferramenta essencial para o desenvolvimento da comunicação. A partir dessa experiência, me encantei profundamente pela área e passei a me dedicar de forma mais intencional ao estudo da CAA, buscando cursos, formações e aprofundamento teórico e prático.
Receber um aluno usuário de CAA foi, ao mesmo tempo, desafiador e transformador. No início, confesso que me senti insegura. A formação acadêmica pouco aborda, na prática, como promover comunicação com alunos não oralizados ou com fala limitada. Havia vontade, sensibilidade, mas também muitas dúvidas: por onde começar? Como ensinar? Como acessar esse aluno?
Os desafios foram muitos. Desde a falta de materiais adaptados até a ausência de formação específica nas instituições. Foi necessário buscar caminhos por conta própria — cursos, estudos, formações em PODD, Core Power, além de muita observação e escuta sensível. Aprendi que a comunicação vai muito além da fala: ela está no olhar, no gesto, na intenção.
Com o tempo, fui compreendendo que a CAA não é um recurso complementar — ela é essencial. Ela não limita, ela expande. Não substitui, ela potencializa. E, principalmente, ela humaniza o processo educativo, porque garante ao aluno o direito de se expressar, de participar e de ser compreendido.
Essa experiência transformou completamente minha prática pedagógica. Passei a planejar atividades mais acessíveis, a utilizar recursos visuais, pranchas de comunicação, tecnologias assistivas e estratégias individualizadas. Mais do que ensinar conteúdos, passei a ensinar possibilidades de comunicação e interação.
Atualmente, minha intenção é ingressar no mestrado na área, já possuindo um projeto voltado ao desenvolvimento de uma plataforma digital de Comunicação Aumentativa e Alternativa, com foco na educação inclusiva. A proposta busca ampliar o acesso à comunicação funcional para crianças, adolescentes e adultos com necessidades complexas de comunicação, especialmente no contexto educacional.
Trabalhar com alunos usuários de CAA me ensinou que inclusão não é adaptação pontual — é mudança de olhar. É reconhecer que todos têm algo a dizer, mesmo quando ainda não sabemos como escutar.
Se hoje posso contribuir com outros profissionais, é porque um dia também estive no lugar de quem não sabia por onde começar. E é justamente por isso que acredito: compartilhar experiências é um ato potente de formação e de esperança.
Mini currículo: Priscila Andrade Damasceno é pedagoga e filósofa, com especializações em Educação Inclusiva, Psicopedagogia e Análise do Comportamento Aplicada. Atua com crianças autistas e com necessidades complexas de comunicação, com experiência em contexto clínico e educacional, desenvolvendo práticas pedagógicas inclusivas e projetos voltados à Comunicação Aumentativa e Alternativa.